Por Profª. Adalgisa Arantes Campos – UFMG

Vila Rica foi elevada à municipalidade, em 08 de junho de 1711, por ocasião da chegada do governador Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho que estava na região especialmente para acalmar os ânimos após a guerra dos Emboabas. Antes disso, consistia em uma série de pequenos núcleos populacionais próximos aos córregos, especialmente voltados para a exploração do ouro. De modo que o título de Vila Rica de Albuquerque vai batizar esse conjunto de populações dispersas, ansiosas com os achados de ouro. Assim, a denominação era pertinente (…):

nome que se deu pela opulência dos seus morros e córregos do Ouro Preto e Antônio Dias, nomes que também tomaram quando se descobriram, este por ser o seu descobridor chamado Antônio Dias, homem mestiço e, aquele pelo ouro que produzia ser pouco resplandecente e de uma cor quase preta, sendo aliás, no toque, depois de burnido, o melhor.[1]

A sede de Vila  Rica englobava povoados relativamente dispersos e com densidade populacional variada, cada qual com sua indispensável capelinha para dar assistência espiritual aos moradores visto que “faziam-se essenciais à conquista das Minas, ora por efetiva piedade religiosa, que era muita; ora por interesses máximos da colonização”.[2] 

Há que se destacar aqui o sistema de Padroado vigente em Portugal e em seu vasto império ultramarino. Essa instituição já se encontrava configurada em 1514, quando então o Papa Leão expediu três bulas a Dom Manuel, o Venturoso. O Padroado régio expressa o reconhecimento da Santa Sé em relação a perseverante obra cruzadista e missionária realizada por Dom Manuel e seus antecessores, no sentido de se expandir a Cristandade Católica, que vinha ocorrendo desde o reinado de D. João I “quer seja na África contra os infiéis sarracenos, quer em outros lugares contra infiéis inimigos de Cristo”[3].

As ocupações humanas em torno de uma capela e nas imediações das lavras: o Morro do Ouro Fino e a Capela de São João Batista

A povoação no Morro do Ouro Fino em torno da capelinha de São João Batista é considerada como mais antiga, embora não tenha prosperado muito. A capelinha marca a chegada dos bandeirantes no alvorecer de 24 de junho de 1698, dia desse santo[4].

O Morro do Ouro Podre ou do Pascoal: a Capela de São Sebastião

A primeira ocupação do Ouro Podre foi pouco posterior a do Ouro Fino, com a capela primitiva de São Sebastião, que foi mudada de lugar décadas depois e construída a em pedra e cal.  É a única sob a jurisdição da paróquia de Nossa Senhora do Pilar ainda na atualidade, diferentemente das demais que pertencem à freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias. 

Este sitio foi repovoado, e explorado com técnicas mais avançadas:

 Os paulistas são considerados ignorantes no tocante às técnicas de mineração(…), “logo que extraíam a flor de um ribeiro, passavam para o outro, e assim em pouco tempo desanimavam. Os reinículas, porém, que entraram depois dos descobrimentos, traziam consigo a notícia do método usado na Nova Espanha de conduzirem as águas em regos para se desbancar a terra vegetal e os montes a talho aberto. O primeiro que iniciou este modo de minerar em Ouro Preto foi Pascoal da Silva Guimarães (VASCONCELOS. História Antiga das Minas Gerais.1974, p.240-241).

Pascoal da Silva era natural da região do Minho, mas já se encontrava desde moço no Rio de Janeiro, praça das mais concorridas e só inferior à de Salvador, o que contribuiu para o seu enriquecimento “de improviso”, mediante tratos comerciais e a diversificação das atividades no Rio das Velhas, antes de se estabelecer como minerador em Vila Rica.  Seu nome consta como signatário da ata de instalação de Vila Rica de 08/07/1711, e como primeiro provedor da irmandade do Santíssimo da Paróquia de NSRA do Pilar. É considerado pelos estudiosos o protagonista da sublevação de 1720, que levou à execução do alferes Felipe dos Santos.[5] Ainda segundo Diogo de Vasconcelos:

Em 1704, depois que aos paulistas se figurou esgotado o ribeiro de Ouro Preto, Pascoal da Silva, que o havia conhecido, considerou que as abas da serra continham forçosamente as madres de tão maravilhosos sedimentos, e com vistas perspicazes, concluindo que as cabeceiras do córrego de Antônio Dias seriam as mais férteis, nelas instalou-se (…).

Segundo Dom Pedro de Almeida, Conde de Assumar, Pascoal da Silva teria cerca de 300 escravos ativos em seus negócios na Comarca do Rio das Velhas e nas “lavras no morro chamado de seu nome, ou porque havia muito que nele morava, ou porque sempre o tiranizava, querendo à força fazer-se senhor da maior parte dele, com notório prejuízo de Vila Rica(…) .” (Discurso histórico e político, 1994, P. 69 e 71)

Simão Ferreira Machado, no Triunfo Eucarístico em 1733, refere-se ao morro elevado “a que se deu o nome de Paschoal da Silva o mais opulento morador dele, e das Minas: a este Morro, pela inexhaurível copia de ouro, chama o vulgo, Fiador das Minas (…).”[6] Pascoal da Silva não residia no centro da Vila, tendo se estabelecido de fato no morro que levou seu nome e havia muito que nele morava, cujas propriedades foram queimadas a mando do Dom Pedro de Almeida, o conde de Assumar. A pesquisa nos registros do Pilar confirma a presença de oratório particular em sua residência, sem definição de orago.

Joaquim Furtado de Menezes no seu Bicentenário de Ouro Preto já havia advertido sobre o fato da capela de São Sebastião se encontrar em lugar distinto daquele em que fora erigida inicialmente. Sabe-se que na maioria das vezes a provisão de ereção era solicitada junto ao bispado competente, quando a capela já estava completamente erguida e funcionando, para atender ao aspecto normativo. Uma provisão de 1778 registra tal mudança de sítio: “Dita [capela] de São Sebastião, requerida pelos devotos, e fundada no Ouro Podre no ano de 1724, e foi mudada para o Morro, onde existe hoje (…)”.[7] Sua reconstrução em pedra se deu em  1753, data registrada no arco-cruzeiro, mas que não representa a finalização das obras. Esta se daria mais de uma década depois, conforme testamento abaixo.

Capela do Padre Faria

Descendo um pouco mais e atravessando o caminho tronco tem-se a Capela do Padre Faria, concomitante à exploração de ouro nos morros. Seu orago original era Nossa Senhora do Carmo, mudado para Rosário dos Brancos e com tal denominação consta nos diversos fundos documentais. O nome do sacerdote foi mantido como topônimo desse bairro que se manteve muito próspero e muito populoso em razão da mineração local. Homem prático, trouxe consigo o seu próprio arraial de índios e escravos, segundo relato de frei Agostinho de Santa Maria no seu “Santuário Mariano”, nos inícios da década de 1710:  

Este Padre, que se chamava João de Faria saiu de São Paulo movido da fama do muito ouro, que havia no sítio, em que se fundou Vila Rica, e com os desejos de ajuntar muito deste feitiço dos homens, veio com o seu Arraial de índios e escravos, e a este sítio, em que assentou as suas lavras, deram o nome do Arraial do Padre Faria. Este com a devoção, que tinha a Nossa Senhora do Carmo, levantou à Senhora do Carmo (…) uma bonita igreja, que lhe dedicou, para nela ouvirem missa as gentes do seu Arraial, e os moradores seus vizinhos, a qual até os presente não há passado de Ermida.[8]

Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto e sua jurisdição

Simultaneamente do lado oposto, os bairros que formaram a freguesia de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto: o Rosário dos Pretos na paragem do Caquende; “São José dos Pardos e Bem Casados” e a capela do Bonfim próxima à matriz, todas na primeira metade do século XVIII.

Internamente a Vila foi dividida em duas freguesias: a mais antiga, de Nossa Senhora da Conceição, no bairro do Antônio Dias[9],  e  poucos anos depois a de Nossa Senhora do Pilar no bairro do Ouro Preto, cada uma como sede paroquial. 

Da extração do ouro até a criação de uma alegoria do ouro preto 

O rápido aumento populacional impulsionou formas diferenciadas de extração de ouro que forram desde a mineração de aluvião, rapidamente exaurida, seguida pela abertura de minas subterrâneas. Processos de extração mais sofisticados foram introduzidos por meio de vultuosos investimentos, requerendo a presença de proprietários das lavras, de seus instrumentos e principalmente da força de trabalho, com numeroso plantel de escravos africanos que também se fazem presentes nas irmandades negras mais recuadas como o Rosário do Caquende e o Rosário do Alto da Cruz.  

Há que se destacar a nomenclatura encontrada já nos primórdios de Vila Rica para se referir ao tipo de ouro: ouro de aluvião, encontrado misturado ao cascalho, areia e argila às margens dos rios e córregos; ouro podre ou escuro e sujo; ouro preto, já mencionado, coberto por camada de minério de ferro e, por isso, de cor escura. O tipo de ouro, os primeiros potentados da época e os desbravadores – leigo ou sacerdote, acabaram também por dar nome aos bairros e arraiais e distritos de Vila Rica. 

A aglomeração humana, motivada pela busca do ouro, o “feitiço dos homensexpressão de Santa Maria, foi rápida, intensa e concomitante à atividade mineradora. Por vezes os povoados ou bairros acabaram por receber o nome do tipo do ouro encontrado Ouro Podre (São Sebastião), Ouro Fino (São João Batista), Ouro Preto (Nossa Senhora do Pilar) etc. Há referências do tupi também para distinguir aspectos geográficos ou povoações como o Pico do Itacolomy ou as povoações do Tripuí, da Bocaina, ou o bairro do Caquende, cá-aquém de  Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto.

O território batizado como Ouro Preto em razão do minério precioso foi simultaneamente elevado à sede de paróquia com o título de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto, 08 de julho de 1711. Por sua vez a mudança do nome para “Ouro Preto” ocorreu apenas em 1822, no período imperial, quando a Capitania de Minas Gerais se transformou em Província de Minas Gerais, terminologia esta que aparece nos documentos ora pesquisados. 

É interessante destacar que já nos anos de 1730 tinha-se alegorias específicas para se representar os lugares e a qualidade do ouro encontrado. A alegoria é a personificação de uma ideia muito usada na linguagem artística e, assim, o Ouro Preto no célebre Triunfo Eucarístico de 1733 foi levado por uma figura com turbante, em cujo peito trazia  bordadas as armas reais, encimadas pelo dístico Viva o Ouro Preto: “Levava na mão direita huma salva (pequeno prato), dentro nella hum morrozinho, coberto de folhas de ouro, e diamante. 


[1] Códice Costa Matoso. Coleção das notícias dos primeiros descobrimentos na América…. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1999.

[2] História Antiga das Minas Gerais; prefácio de Francisco Iglésias, introdução de Basílio de Magalhães. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974. P.226.

[3] KUHNEN, Alceu. As origens da Igreja no Brasil 1500 a 1552. Bauru: EDUSC, 2005. p. 92.

[4] VASCONCELOS, Diogo de. História Antiga das Minas Gerais; prefácio de Francisco Iglésias, introdução de Basílio de Magalhães. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974. P XX;

[5] Discurso histórico e político sobre a sublevação que nas Minas houve no ano de 1720. Estudo crítico, estabelecimento do texto e notas: Laura de Mello e Souza. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1994.

[6] Ávila Affonso, Resíduos seiscentista em Minas textos do século do ouro e as projeções do mundo barroco. Belo Horizonte, Centro de Estudos Mineiros, 1967. 1º volume.  fl. 40-41 e 196-197.

[7] AEAM, Resíduos Caixa 03, fl. avulsa, “Rellação das Capellas Feliaes desta Matriz de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto”.

[8] A escultura em madeira de NSRA do Carmo mandada fazer pelo padre Faria, “muito ricamente estofada”, e com pouco mais de quatro palmos se encontra felizmente em perfeito estado in: SANTA MARIA, Agostinho de. Santuário Mariano e história das imagens milagrosas de Nossa Senhora e das milagrosamente aparecidas, que se veneram em todo o Bispado do Rio de Janeiro, e Minas e em todas as ilhas do Oceano, t. 10, t. 11. Lisboa: Oficina de Antônio Pedroso Galram, 1723, pp. 245-246.

[9] Antônio Dias de Oliveira era natural de Taubaté e foi pioneiro em alcançar essa região, no ano de 1698. Era um homem experiente, dotado de “grande inteligência e conhecimento” nessas diligências, e com os recursos necessários para custear uma comitiva grande e variada, que era composta por homens livres e escravos (pretos e índios). 

Na Foto: Pilares Mineiras: 1 – Barbacena / 2 – Congonhas (Lagoa Dourada) / 3 – São Bartolomeu/ 4 – Ouro Preto/ 5 – São João del-Rei. Referência: CAMPOS, Eduardo Abrantes. Remanescente debum patrimônio esquecido: Nossa Senhora do Pilar e a Capela do Registro Velho.bInconfidentia: Revista Eletrônica de Filosofia. v. 6, n. 12, julho-dezembro de 2022.


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