A cerimônia de entrega acontece no próximo dia 15, às 17 horas, e configura um gesto de reconhecimento do legado da população negra escravizada na arte mineira

A inclusão das imagens de São Benedito e do Rei Mago Baltazar ao acervo do Museu da Inconfidência representa mais um êxito do Movimento de Aquisição de Obras para Museus Brasileiros, concebido e coordenado pelo IPAC – Instituto de Pesquisa e Promoção à Arte e Cultura – Brasília, com o propósito de qualificar e diversificar os acervos públicos do país.

A iniciativa conta com o patrocínio da CAIXA Residencial que, ao viabilizar a aquisição das duas esculturas, inaugura sua coleção de arte no acervo do Museu da Inconfidência, a Coleção CAIXA Residencial. “Esta incorporação ao museu fortalece o acesso democrático à cultura, destacando narrativas essenciais e reconhecendo a diversidade que constitui as identidades nacionais, em especial o protagonismo afrodescendente”, afirma Rodrigo Valença, presidente da CAIXA Residencial, que fará a entrega das obras ao diretor do Museu da Inconfidência, Alex Calheiros de Moura.

As esculturas de São Benedito e do Rei Mago Baltazar serão apresentadas ao público em exposição gratuita até o dia 30 de julho, ao lado de outras peças recentemente incorporadas ao acervo da instituição. A mostra também reúne obras contemporâneas das artistas Jeane Terra – Autorretrato – e Thaïs Helt – Ouro Negro. Ambas estabelecem um diálogo crítico com a história, o patrimônio e as narrativas coloniais. Representantes do Congado de Nossa Senhora do Rosário – santa padroeira dos negros escravizados – farão a abertura da exposição. 

Rei Mago Baltasar – ©Foto Vicente de Mello

O MOVIMENTO

A incorporação das imagens dos santos pretos ao acervo do Museu da Inconfidência não se limita a um gesto de aquisição patrimonial. Trata-se de um movimento curatorial que reposiciona o olhar, desloca narrativas e reinscreve, no centro da história, corpos que durante séculos foram mantidos à margem da
representação
, afirma Daiana Castilho Dias, diretora do IPAC e coordenadora do Movimento.

Ao destacar a parceria com o IPAC, o diretor Alex Calheiros Moura afirma que o museu deve refletir uma história que vai além de seus marcos oficiais, não podendo ser compreendido sem o reconhecimento da população africana e afrodescendente em sua formação. “Receber no acervo do Museu da Inconfidência as imagens de São Benedito com o Menino Jesus e do Rei Mago Baltazar, assim como os trabalhos das artistas Jeane Terra e Thaïs Helt, reafirma a missão institucional de rever criticamente as narrativas, ampliar os sujeitos representados nas exposições e reconhecer a presença negra como dimensão constitutiva da história de Ouro Preto e de Minas Gerais”, conclui.

Incentivado pelo Ministério da Cultura e pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), com articulação do IPAC, o Movimento de Aquisição de Obras para Museus Brasileiros propõe um modelo de atuação conjunta entre poder público, iniciativa privada e sociedade civil, orientado por critérios de interesse coletivo, transparência e responsabilidade pública.

Fernanda Castro, presidente do IBRAM, reafirma o compromisso da instituição com políticas museológicas voltadas à diversidade, à equidade e à elaboração crítica da memória nacional. “Ao incorporar obras que evocam a presença afrodescendente na formação cultural do país, o Museu da Inconfidência amplia sua capacidade de abordar temas sensíveis e de contribuir para o enfrentamento dos silenciamentos históricos”, destaca.

Como parte da programação de entrega das obras e abertura da exposição, será realizado um bate-papo com o pesquisador Fábio Zarattini, doutor pelo programa de Pós-Graduação em Artes (Escola de Belas Artes/UFMG), que discutirá os desafios contemporâneos das políticas de aquisição, a formação dos acervos museológicos brasileiros e os sentidos históricos, simbólicos e sociais das obras incorporadas. 

SANTOS PRETOS

A arte produzida por pessoas escravizadas no Brasil Colonial constituiu também uma forma de afirmação identitária. Em meio à violência da escravidão, artistas e comunidades negras ocuparam espaços simbólicos na estrutura colonial por meio da criação e da devoção a santos negros. Incorporadas à religiosidade católica, essas imagens permitiram preservar vínculos de ancestralidade e pertencimento sob o manto da religião oficial.

São Benedito e o Rei Mago Baltazar figuram entre as representações negras de maior relevância na devoção popular brasileira. Vinculado às irmandades do Rosário, São Benedito tornou-se símbolo de humildade, afeto e resistência. Já Baltazar, associado à Epifania, amplia a dimensão universal da mensagem cristã ao incorporar a figura do rei negro como representação da diversidade dos povos.

Fonte: Assessoria IPAC – Instituto de Pesquisa e Promoção à Arte e Cultura – Brasília

Fotos: Vicente de Mello – Destaque: São Benedito