Manifestação após remoção de construções irregulares no bairro São Cristóvão fechou estrada que leva às mineradoras e levou veículos a utilizarem rota proibida por decreto na Estrada da Purificação
Uma manifestação realizada na manhã de terça-feira, 10 de março, em Mariana, provocou bloqueios no trânsito da cidade e reflexos diretos na mobilidade entre os municípios da região dos Inconfidentes, especialmente em Ouro Preto. O protesto ocorreu no bairro São Cristóvão e interditou a rodovia MG-129, após a demolição de construções erguidas em uma área de ocupação irregular.
A mobilização começou ainda durante a madrugada, quando manifestantes utilizaram entulhos e barricadas para impedir a passagem de veículos, principalmente no sentido das mineradoras e da região do Gogo. O bloqueio gerou congestionamentos, atrasos no transporte de trabalhadores e impactos direto na mobilidade da cidade.
O protesto foi motivado pela ação da Prefeitura de Mariana realizada na tarde do dia anterior, quando equipes municipais demoliram mais de uma dezena de construções erguidas em uma área pública no bairro São Cristóvão. Segundo a administração municipal, o local é classificado como área de preservação permanente e apresenta riscos de erosão, alagamentos e deslizamentos. De acordo com o município, parte das estruturas demolidas ainda estava em fase de construção e havia indícios de venda irregular de terrenos na área. Em alguns casos, moradores teriam adquirido lotes acreditando que estavam comprando propriedades regularizadas.
O prefeito de Mariana, Juliano Duarte, afirmou que a intervenção teve como objetivo impedir a consolidação de ocupações em uma área considerada de risco e pertencente ao poder público. Segundo ele, a prefeitura precisa agir para evitar que moradores sejam expostos a situações de perigo e para impedir a comercialização ilegal de terrenos municipais.
A demolição reacendeu o debate sobre a crise habitacional no município. O crescimento da atividade mineradora e a chegada de trabalhadores temporários aumentaram a demanda por moradia na cidade, pressionando o mercado imobiliário e contribuindo para o surgimento de ocupações irregulares. Estimativas apresentadas em debates públicos apontam que Mariana enfrenta um déficit habitacional que pode chegar a milhares de moradias, cenário que intensifica conflitos envolvendo ocupações urbanas e acesso à moradia.
O bloqueio da rodovia também teve impacto em cidades vizinhas. Com o trânsito interrompido em Mariana, parte dos veículos que transportam trabalhadores das mineradoras buscou rotas alternativas, incluindo a Estrada da Purificação, que liga Ouro Preto ao distrito de Antônio Pereira.
No entanto, a via possui restrição para veículos de grande porte. O Decreto Municipal nº 8.047, de 24 de outubro de 2023, proíbe a circulação de veículos oriundos de empresas mineradoras, ônibus ligados à atividade e caminhões com capacidade superior a sete toneladas na estrada, justamente por se tratar de uma via estreita e de uso predominantemente local.
Durante reunião recente da Câmara Municipal de Ouro Preto, o vereador Wemerson Titão denunciou que a restrição teria sido ignorada durante o bloqueio provocado pela manifestação em Mariana.
(“…um decreto onde proíbe a passagem de veículos de grande porte na Estrada da Purificação, e hoje devido a paralisação que teve em Mariana, tem vídeo de vários e vários ônibus passando pela Estrada da Purificação. Lá tem câmeras e a gente tem que punir essas empresas. Foram vários ônibus das mineradoras usando a estrada, uma vez que tem um decreto que proíbe a passagem ali. Foram caminhões, carros 4×4 e mais de 30 ônibus passando por ali.”)
Segundo o vereador, a circulação de ônibus e veículos pesados em uma estrada estreita e com limitações estruturais representa risco para moradores e motoristas que utilizam a via diariamente.
Enquanto a situação em Mariana reacende o debate sobre moradia e planejamento urbano, os impactos do protesto também evidenciam como conflitos urbanos em um município podem gerar efeitos imediatos em cidades vizinhas da região dos Inconfidentes, especialmente em rotas utilizadas por trabalhadores e empresas do setor minerador.


