Realizado em parceria entre a Unifesp e a UFOP, o trabalho mostra o potencial do treinamento de força no retardo de sintomas da doença
A prática de exercícios físicos resistidos, como a musculação, tem se consolidado como uma estratégia eficaz na prevenção e no retardo dos sintomas da doença de Alzheimer, segundo estudo realizado entre a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Os resultados apontam que esse tipo de atividade contribui para a melhora da memória, da cognição e da autonomia em pessoas idosas, além de atuar diretamente em mecanismos biológicos associados ao desenvolvimento da doença.
De acordo com a professora Arlete Barcelos, do Departamento de Cirurgia, Propedêutica e Ginecologia da UFOP, o exercício resistido atua como um “treinamento” para o corpo e para o cérebro. Ela explica que “a prática de exercícios resistidos, quando orientada por um profissional, consegue retardar o envelhecimento metabólico, ósseo, muscular e principalmente cerebral”, acrescentando que “isso significa envelhecer com mais qualidade de vida e autonomia”.
A pesquisa investiga, entre outros aspectos, biomarcadores de neuroproteção estimulados pela contração muscular em modelos experimentais com comprometimento cognitivo leve e doença de Alzheimer. “Observamos que o exercício resistido conseguiu reverter alterações físicas e comportamentais em modelos experimentais, além de reduzir a inflamação e a carga de placas beta-amiloides no hipocampo”, detalha a professora. Novos resultados e publicações, segundo ela, estão em andamento.
Ainda conforme a docente da UFOP, o treinamento de força combate a perda de massa muscular, comum após os 60 anos, ajudando a prevenir a sarcopenia, condição associada ao aumento do risco de quedas, fraturas e perda da independência. Além dos benefícios físicos, o exercício também interfere em processos inflamatórios e hormonais, revela a professora, ressaltando que “o exercício resistido atua como moderador do estresse crônico, reduzindo a produção do hormônio do estresse”. Ela destaca também que o controle desse hormônio contribui para a diminuição do “impacto de transtornos como ansiedade e depressão”, melhorando também “a plasticidade cerebral” e aumentando “a circulação de oxigênio no cérebro, fatores importantes para retardar doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer”.
RESISTIDOS X AERÓBICOS
Embora muitos estudos tradicionalmente enfatizem a importância dos exercícios aeróbicos, pesquisas recentes indicam que o exercício resistido pode ser uma alternativa igualmente ou, em alguns aspectos, até mais eficaz para a população idosa. “Estudos mostram que seis meses de musculação, três vezes por semana, podem proteger o hipocampo”, afirma a professora.
A cientista ressalta que a prática deve sempre ser acompanhada por profissionais capacitados e pode ser adaptada a diferentes níveis de autonomia. Idosos ativos podem realizar treinos de maior intensidade, enquanto aqueles com mobilidade reduzida podem praticar exercícios de baixo impacto, como atividades sentadas, hidroginástica e treinos de equilíbrio.
POLÍTICAS PÚBLICAS
Para Arlete Barcelos, discutir prevenção é tão importante quanto discutir tratamento. “A medicina preventiva prioriza a manutenção da saúde e da qualidade de vida antes do surgimento das doenças. Muitas condições crônicas, como doenças cardíacas, diabetes tipo 2 e até o Alzheimer, podem ser retardadas com mudanças no estilo de vida”, explica.
Além dos benefícios individuais, a inclusão de exercícios resistidos em programas de saúde pública pode reduzir custos com internações e medicamentos, especialmente entre populações de baixa renda. “A inclusão da musculação e de outras atividades de resistência em políticas públicas funciona como um investimento preventivo. Ao reduzir a progressão de doenças crônicas, diminuímos também os custos com cuidados de longa duração”, pontua a docente.
Em 2024, foi sancionada a Lei nº 14.878, que estabelece diretrizes para o cuidado integral às pessoas com Alzheimer e outras demências. A ampliação de estratégias preventivas, como as defendidas pela pesquisa da UFOP e Unifesp, pode fortalecer essa política e ampliar a qualidade de vida de pacientes e familiares.
CENÁRIO NACIONAL– Dados da Federação Brasileira das Associações de Alzheimer (Febraz) revelam que o Brasil tem atualmente mais de dois milhões de pessoas vivendo com algum tipo de demência. A projeção é que esse número chegue a 5,5 milhões até 2050. O cenário é agravado pelo subdiagnóstico, pois, segundo o Relatório Nacional sobre a Demência no Brasil (Renade), publicado em 2024, apenas entre 71,6% e 77% dos casos recebem reconhecimento formal no país.
Fonte: Assessoria Ufop



