Imagine que a Câmara setecentista precisasse realizar uma festa de celebração, fosse aniversário do rei ou rainha, nascimento de uma criança da família real, um casamento ou a fundação de um bispado nas Minas. Era mesmo obrigatório, uma das chamadas “festas reais”, feita uma vez por ano. Não eram totalmente religiosas, embora tais dias sempre começassem por um “Te Deum”, na Matriz. Tinha de ser um festão, com luzes, fogos de artifício ou tiros de salva. Só podia ser realizado na praia do circo, iluminado por centenas de luminárias, muitas delas boiando em cuias, dentro do córrego.
Aliás, é bom saber que esse era o verdadeiro circo que deu nome a praia. Nunca veio de um moderno circo ambulante de lona, como todo mundo pensa, ainda hoje. Nada disso. Era um circo setecentista, um herdeiro bastardo do ancestral circus romano, como o entendia a sociedade luso-brasileira.
Para começo de conversa, a praia do circo, naquela época, era totalmente deserta e não tinha casa alguma, como hoje. Era um grande e largo descampado, onde se montava o chamado curro, círculo onde haveria o espetáculo, cercado fortemente por madeira e tábuas, para a proteção da platéia. Os vereadores da Câmara e convidados especiais, como o governo da capitania, iriam assistir a tudo de um dos três palanques instalados na lateral do curro, elevados em relação à multidão.
Mas não ficava só nisso. Os palanques, segundo exigência da arrematação da construção, deveriam ser forrados e guarnecidos com colchas, cortinados nos pórticos e cobertos de baeta, tecido de lã bem grosso, à guisa de telhado. O palanque da Câmara exibia o seu pavilhão e outras flâmulas decoravam o resto.
Os outros dois seriam ocupados por “homens particulares”. Talvez o vigário, o ouvidor geral, oficiais superiores, desembargadores, doutores, senhoritas de famílias nobres, ou seja, a fina flor da sociedade local. Primeiro, o jogo das argolinhas. Depois, o melhor da festa: a tourada a cavalo, por uma companhia contratada para esta parte.
E quase ia me esquecendo. Havia uma pequena orquestra formada por rabecas e rabecões, trompas, baixo e as vozes de pelo menos um tenor e um contralto. Quando essa galera atacava os instrumentos e música começava, entravam os toureiros e os touros, enlouquecidos pela multidão e pela música, arremetendo contra tudo e contra todos. Não tiro a razão dos pobres bichos.
Aliás, o distrito de São Bartolomeu ainda realiza uma versão dessas touradas, nas festas do padroeiro. A história nunca se encerra de vez.
Mas, aqui entre nós, francamente, aquele povo de outrora era mesmo doido de pedra. Igualzinho a gente.
Por: Kátia Maria Nunes Campos


