{"id":22878,"date":"2023-05-01T16:10:24","date_gmt":"2023-05-01T19:10:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.diariodeouropreto.com.br\/?p=22878"},"modified":"2023-05-01T16:10:29","modified_gmt":"2023-05-01T19:10:29","slug":"informalidade-e-maior-tempo-de-contribuicao-dificultam-aposentadoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.diariodeouropreto.com.br\/pt\/informalidade-e-maior-tempo-de-contribuicao-dificultam-aposentadoria\/","title":{"rendered":"Informalidade e maior tempo de contribui\u00e7\u00e3o dificultam aposentadoria"},"content":{"rendered":"\n<p>Maria de Lourdes do Carmo, de 50 anos, hoje precisa pagar algu\u00e9m para preparar a barraca em que trabalha, no centro do Rio de Janeiro. Carregar peso faz parte de seu dia a dia h\u00e1 27 anos, mas o manuseio dos ferros que estruturam sua loja de roupas na cal\u00e7ada j\u00e1 \u00e9 pesado demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela suporta uma rotina que inclui viajar para S\u00e3o Paulo e comprar as mercadorias, traz\u00ea-las de \u00f4nibus, guard\u00e1-las em dep\u00f3sito e vend\u00ea-las na rua, sob chuva, sol ou vento. At\u00e9 quando vai fazer isso, ela n\u00e3o sabe. Trabalhadora informal, Maria dos Camel\u00f4s, como \u00e9 conhecida, s\u00f3 contribuiu para a previd\u00eancia social nos poucos anos em que manteve em dia seu cadastro como microempreendedora individual (MEI).<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;Eu acredito que minha aposentadoria vai ser os meus filhos. Acredito que vou ficar velhinha e eles v\u00e3o tomar conta de mim. N\u00e3o acredito que vou me aposentar&#8221;, reconhece ela, que come\u00e7ou a trabalhar com 12 anos, como empregada dom\u00e9stica, somando 35 anos de trabalho ininterrupto com o tempo de camel\u00f4.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Se continuar at\u00e9 os 62, idade m\u00ednima para as mulheres se aposentarem, ela ter\u00e1 trabalhado 47 anos. &#8220;\u00c9 muito raro um camel\u00f4 se aposentar. E \u00e9 um servi\u00e7o muito cansativo. A gente n\u00e3o tem banheiro, nem hor\u00e1rio para comer. A gente fica exposto ao sol, e essa coisa de perder mercadoria para a Guarda Municipal deixa a gente estressado, com press\u00e3o alta, problemas de cora\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, a gente vai sofrer de um monte de coisas. A gente envelhece mais r\u00e1pido\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mobiliza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o com o futuro est\u00e1 entre as motiva\u00e7\u00f5es da mobiliza\u00e7\u00e3o liderada por Maria de Lourdes, que coordena o Movimento Unido dos Camel\u00f4s (Muca) no Rio de Janeiro e integra o Movimento dos Trabalhadores Sem Direitos. Ela afirma que muitos camel\u00f4s adquiriram d\u00edvidas a partir da ades\u00e3o ao MEI, e agora voltaram a ficar totalmente descobertos e sem contribuir com a previd\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/loading_v2.gif\" alt=\"Rio de Janeiro (RJ), 26\/04\/2023 - Maria de Lourdes do Carmo, conhecida como Maria dos Camel\u00f4s, camel\u00f4 h\u00e1 quase 30 anos e l\u00edder do Movimento \u00danico dos Camel\u00f4s, em sua barraca no centro da cidade. Foto: T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil\" title=\"T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Rio de Janeiro (RJ), 26\/04\/2023 &#8211; Maria de Lourdes do Carmo, conhecida como Maria dos Camel\u00f4s, trabalha h\u00e1 quase 30 anos vendendo produtos na rua.&nbsp; Foto:&nbsp;<strong>T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>\u201cV\u00e1rias pessoas estavam pagando o MEI e, quando chegou a pandemia, pararam de pagar, porque n\u00e3o estavam recebendo nada. E as pessoas que ficaram doentes n\u00e3o tiveram direito a nada, porque tinham interrompido o pagamento. Muitas pessoas ficaram com d\u00edvidas e n\u00e3o conseguiram sanar essa d\u00edvida. A gente pede que o governo rediscuta isso, porque essa coisa do microempreendedor individual \u00e9 um engodo. As pessoas acham que v\u00e3o resolver as coisas no individualismo. Elas acham que s\u00e3o empres\u00e1rios, mas n\u00e3o s\u00e3o\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A camel\u00f4 e outras companheiras da categoria se acorrentaram ao port\u00e3o da C\u00e2mara Municipal do Rio de Janeiro na \u00faltima quarta-feira (27) com uma pauta extensa, que inclui o fim da viol\u00eancia contra os ambulantes irregulares e mais di\u00e1logo com a prefeitura. Um protesto foi organizado para reivindicar visibilidade e direitos para os trabalhadores, e alguns dos cartazes levados evidenciavam o teor da manifesta\u00e7\u00e3o. \u201cMeu trabalho informal importa\u201d, dizia um.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Benef\u00edcios menores<\/h2>\n\n\n\n<p>Assim como Maria de Lourdes, 38 milh\u00f5es de brasileiros s\u00e3o considerados trabalhadores informais pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), por n\u00e3o terem v\u00ednculos empregat\u00edcios nem trabalharem por conta pr\u00f3pria como aut\u00f4nomos, pessoas jur\u00eddicas ou microempreendedores. Esse n\u00famero \u00e9 maior que toda a popula\u00e7\u00e3o da Regi\u00e3o Sul e tamb\u00e9m que os 36 milh\u00f5es de empregados do setor privado com carteira assinada e que os 12 milh\u00f5es de empregados do setor p\u00fablico. Esses trabalhadores podem contribuir para a previd\u00eancia de forma aut\u00f4noma, com al\u00edquotas de 11% a 20%, mas necessidades mais urgentes, muitas vezes, impedem que reste algum dinheiro para o futuro, explica a diretora t\u00e9cnica adjunta do Departamento Intersindical de Estat\u00edsticas e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese), Patr\u00edcia Pelatieri. Com exig\u00eancias mais r\u00edgidas e mudan\u00e7as de c\u00e1lculo impostas pela Reforma da Previd\u00eancia, benef\u00edcios menores ou aposentadoria alguma os aguardam na velhice.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;As regras de aposentadoria no Brasil j\u00e1 eram muito severas, considerando a estrutura de mercado de trabalho que a gente tem. Elas j\u00e1 exigiam um m\u00ednimo de contribui\u00e7\u00e3o de 15 anos, uma regra muito dif\u00edcil para um mercado de trabalho com rotatividade muito alta, com desemprego de longa dura\u00e7\u00e3o e em que a grande maioria dos trabalhadores t\u00eam baixa perman\u00eancia nos empregos formais, e isso quando t\u00eam trabalho formal. \u00c9 s\u00f3 uma parcela pequena dos trabalhadores que t\u00eam uma carreira de 20 ou 30 anos que permite uma contribui\u00e7\u00e3o permanente&#8221;, destacou Patr\u00edcia Pelatieri.<\/p>\n\n\n\n<p>O Dieese estima que, contando com per\u00edodos de desemprego e informalidade, o trabalhador brasileiro leva cerca de 25 anos para somar 15 anos de contribui\u00e7\u00e3o. Com o aumento da contribui\u00e7\u00e3o m\u00ednima, para homens, para 20 anos, associada \u00e0 idade m\u00ednima de 65 anos, a concess\u00e3o do benef\u00edcio ficou ainda mais distante. E, mesmo chegando a esse somat\u00f3rio, a nova f\u00f3rmula de c\u00e1lculo reserva ao aposentado um benef\u00edcio at\u00e9 20% menor. Patr\u00edcia Pelatieri explica que essa perda ocorre mesmo que a pessoa some os 40 anos de contribui\u00e7\u00e3o, no caso do homem, ou 35, no caso da mulher, necess\u00e1rios para ter direito ao benef\u00edcio completo que caber\u00e1 ao seu hist\u00f3rico de contribui\u00e7\u00e3o. No caso de quem est\u00e1 coberto pelas regras de transi\u00e7\u00e3o, o ped\u00e1gio de 100% tamb\u00e9m n\u00e3o evita essa perda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Antes, a regra considerava 80% dos maiores sal\u00e1rios de contribui\u00e7\u00e3o para calcular o benef\u00edcio, e voc\u00ea tirava os sal\u00e1rios menores da conta. Com a reforma, agora \u00e9 pra considerar todo o per\u00edodo na m\u00e9dia, incluindo os menores sal\u00e1rios&#8221;, resume.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se as mudan\u00e7as impactaram os trabalhadores formais, que ter\u00e3o os piores sal\u00e1rios de suas carreiras contabilizados no c\u00e1lculo da aposentadoria, elas dificultam ainda mais para os informais, afirma Patr\u00edcia. E essas exig\u00eancias mais r\u00edgidas come\u00e7aram a ser implementadas em um cen\u00e1rio de crise econ\u00f4mica e sanit\u00e1ria, em que o desemprego e a informalidade cresceram. Al\u00e9m disso, as rela\u00e7\u00f5es de trabalho prec\u00e1rias se multiplicaram com a amplia\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o de mecanismos como a terceiriza\u00e7\u00e3o, a pejotiza\u00e7\u00e3o e o trabalho intermitente, acrescenta ela.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O que estamos olhando \u00e9 que, daqui a 20 anos, se nada for feito, teremos uma parcela de quase metade da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa em idade avan\u00e7ada e sem nenhuma possibilidade de se aposentar&#8221;, afirma a diretora do Dieese, que prev\u00ea impactos para todas as faixas et\u00e1rias. \u201cEssas pessoas estar\u00e3o concorrendo com os mais jovens que est\u00e3o ingressando no mercado de trabalho. Haver\u00e1 uma press\u00e3o em busca de vagas, uma disputa entre uma maior escolaridade e uma maior experi\u00eancia, rebaixando muito os sal\u00e1rios. Vai ter gente aceitando, muito possivelmente, os postos de trabalho por sal\u00e1rios muito menores. Isso impacta toda a economia, porque nossos sal\u00e1rios j\u00e1 s\u00e3o muito baixos. Um pa\u00eds de renda mais baixa consome menos, tem menor produ\u00e7\u00e3o e menor capacidade arrecadat\u00f3ria. \u00c9 um pa\u00eds que tende a empobrecer no futuro\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Empobrecimento<\/h2>\n\n\n\n<p>Nos 27 anos em que trabalha como camel\u00f4, Maria de Lourdes nunca viu tantas pessoas na rua em busca de um sustento. Entre essas pessoas, conta que se destaca a presen\u00e7a de m\u00e3es solo, adolescentes e idosos. &#8220;Muita gente que fica desempregada passa pela rua e, quando consegue um trabalho formal, vai embora. Por isso, a rua tem esse fluxo. Em alguns momentos, est\u00e1 cheia de gente e, em outros, est\u00e1 vazia. Este, agora, \u00e9 o pior momento, com mais gente&#8221;, descreve ela. &#8220;Tem muitos idosos chegando na rua agora para trabalhar. Eles pedem ajuda para saber onde podem ficar, o que podem vender. Tem gente que n\u00e3o consegue se sustentar com a aposentadoria. Tem gente que n\u00e3o conseguiu se aposentar e o mercado de trabalho n\u00e3o quer mais. Tem gente que o filho ou a filha morreu e precisa sustentar os netos. S\u00e3o muitas hist\u00f3rias&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/loading_v2.gif\" alt=\"Rio de Janeiro (RJ), 27\/04\/2023 - O Movimento Unidos dos Camel\u00f4s (MUCA) e o movimento nacional Trabalhadores Sem Direitos protestam em frente a C\u00e2mara Municipal do Rio de Janeiro, na Cinel\u00e2ndia, centro da cidade. Foto: T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil\" title=\"T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Rio de Janeiro (RJ), 27\/04\/2023 &#8211; O Movimento Unidos dos Camel\u00f4s (MUCA) e o movimento nacional Trabalhadores Sem Direitos protestam em frente a C\u00e2mara Municipal do Rio de Janeiro, na Cinel\u00e2ndia, centro da cidade. Foto:&nbsp;<strong>T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>Entrar para o mercado informal, na maioria das vezes, significa perder renda. Segundo o IBGE, enquanto a renda m\u00e9dia do trabalhador brasileiro era de mais de R$ 2,8 mil por m\u00eas no trimestre encerrado em fevereiro, os empregados informais do setor privado ganhavam R$ 1.914 em m\u00e9dia. Os trabalhadores por conta pr\u00f3pria sem CNPJ recebiam menos, R$ 1.739, e os trabalhadores dom\u00e9sticos sem carteira assinada, R$ 960. Todos esses valores s\u00e3o m\u00e9dios, o que significa que h\u00e1 uma parcela consider\u00e1vel abaixo deles.<\/p>\n\n\n\n<p>A informalidade \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o de cerca de quatro em cada dez trabalhadores em atividade no pa\u00eds, j\u00e1 que a taxa de informalidade da popula\u00e7\u00e3o ocupada nunca ficou abaixo de 38% desde 2015 e passou longos per\u00edodos acima dos 40%, entre os anos de 2017 e 2022. Fora os 38 milh\u00f5es de trabalhadores informais, a aposentadoria tamb\u00e9m fica cada vez mais distante dos 9 milh\u00f5es de desempregados &#8211; que procuram emprego e n\u00e3o encontram &#8211; e dos 4 milh\u00f5es de desalentados &#8211; que j\u00e1 desistiram de procurar emprego.<\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00famero de empregos formais no setor privado chegou a 37,7 milh\u00f5es em 2014, e, desde ent\u00e3o, se seguiu um per\u00edodo de sete anos com sucessivas crises econ\u00f4micas e pol\u00edticas, e esse patamar n\u00e3o foi mais atingido. No pior momento, ap\u00f3s o per\u00edodo mais restritivo da pandemia de covid-19, em 2020, o n\u00famero de pessoas ocupadas com carteira assinada no setor privado caiu para apenas 30 milh\u00f5es &#8211; 7 milh\u00f5es a menos que no pico, um contingente maior que a popula\u00e7\u00e3o da cidade do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A vice-presidenta da Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Procuradores e Procuradoras do Trabalho, Lydiane Machado e Silva, prev\u00ea que a soma do mercado de trabalho atual com a Reforma da Previd\u00eancia vai causar uma press\u00e3o maior na assist\u00eancia social no futuro, porque o resultado ser\u00e3o muitos idosos empobrecidos ou sem renda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Se a gente faz uma reforma previdenci\u00e1ria com base no aumento da expectativa de vida, a gente tem que estar preparado para receber melhor essas pessoas e mant\u00ea-las vinculadas ao mercado de trabalho. Mas o que a gente v\u00ea hoje \u00e9 totalmente distinto disso&#8221;, avalia. &#8220;A experi\u00eancia que vem com a idade muitas vezes faz a pessoa ter uma remunera\u00e7\u00e3o maior, e, quando a empresa quer reduzir custos, ela troca essa pessoa por outra que est\u00e1 come\u00e7ando agora. A gente n\u00e3o tem um mercado de trabalho receptivo aos idosos, embora a gente determine, com a Reforma da Previd\u00eancia, que essas pessoas devem permanecer mais tempo no mercado. Fatalmente, essa pessoa vai cair na informalidade e em condi\u00e7\u00f5es mais prec\u00e1rias de trabalho. Ou vai se conformar com um benef\u00edcio previdenci\u00e1rio bem reduzido para n\u00e3o ficar sem nada [se aposentando antes do que planejava]&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A procuradora do trabalho alerta que a urg\u00eancia em obter um sal\u00e1rio somada a formas prec\u00e1rias de contrata\u00e7\u00e3o vai continuar pressionando por informalidade e promovendo um achatamento da renda do trabalhador, o que pode diminuir as pr\u00f3prias contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 previd\u00eancia social. O ind\u00edcio mais evidente dessa precariza\u00e7\u00e3o, na vis\u00e3o dela, \u00e9 o aumento do n\u00famero de pessoas resgatadas em trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o, que foi recorde no primeiro trimestre deste ano e est\u00e1, muitas vezes, associado a empresas terceirizadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ao longo desses \u00faltimos anos, ao contr\u00e1rio do que as reformas pregavam no sentido de aumentar os postos de trabalho, o que a gente v\u00ea \u00e9 um crescimento da informalidade e uma precariza\u00e7\u00e3o dos postos de trabalhos j\u00e1 existentes, porque h\u00e1 uma reserva de trabalhadores desempregados t\u00e3o grande que \u00e9 muito tranquilo para o empregador substituir esse empregado por uma pessoa que ganhe menos&#8221;, afirma ela. &#8220;Os benef\u00edcios previdenci\u00e1rios precisam garantir o m\u00ednimo de subsist\u00eancia e, da forma como as coisas est\u00e3o acontecendo aqui no Brasil, com essas sucessivas reformas previdenci\u00e1rias, que n\u00e3o criam formas alternativas de arrecada\u00e7\u00e3o e somente aumentam os requisitos da concess\u00e3o dos benef\u00edcios e pioram a forma de c\u00e1lculo, a gente vai ver que esse mecanismo \u00e9 insustent\u00e1vel. Em algum momento, o Estado Brasileiro vai ter que assumir a responsabilidade sobre essas pessoas que v\u00e3o pressionar o sistema de assist\u00eancia social&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Somente o b\u00e1sico<\/h2>\n\n\n\n<p>Coordenador dos \u00edndices de pre\u00e7os do Instituto Brasileiro de Economia da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (IBRE\/FGV), o economista Andr\u00e9 Braz tem entre os indicadores calculados por sua equipe aquele que mede a infla\u00e7\u00e3o da terceira idade, o IPC-3i. O c\u00e1lculo parte da diferen\u00e7a da cesta de compras dos idosos, em que algumas despesas como planos de sa\u00fade e medicamentos t\u00eam mais peso, e outras, como transporte p\u00fablico, menos. Em um cen\u00e1rio de idosos mais empobrecidos, ele estima que essa cesta de compras ficar\u00e1 cada vez mais concentrada no b\u00e1sico para a sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCada vez mais concentrada em alimenta\u00e7\u00e3o e algumas tarifas p\u00fablicas, como energia, \u00e1gua e telefonia, de que a fam\u00edlia n\u00e3o pode abrir m\u00e3o. Isso significa uma perda da qualidade de vida, porque, se o idoso est\u00e1 vivendo mais, ele teria oportunidade de aproveitar a vida fora da rotina de trabalho, viajando, interagindo com outras pessoas, consumindo servi\u00e7os de lazer como cinemas e teatros. Isso \u00e9 o que se deseja com a terceira idade. Ter um comprometimento menor com sa\u00fade para ter mais recursos para investir na qualidade de vida. Infelizmente, com o comprometimento das aposentadorias, o que se v\u00ea \u00e9 uma redu\u00e7\u00e3o da qualidade de vida, por pouco acesso a servi\u00e7os de lazer e sa\u00fade e por uma necessidade de comprar comida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Braz estima que essa j\u00e1 \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o de idosos pobres, que gastam menos ou nada com planos de sa\u00fade, medicamentos e lazer. Para eles, os alimentos j\u00e1 est\u00e3o no centro da cesta de compras. \u201cMuitos idosos acabam sustentando descendentes que n\u00e3o conseguiram recoloca\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho. Muitos idosos s\u00e3o chefes de fam\u00edlia, e, por isso, a fam\u00edlia imp\u00f5e a eles a responsabilidade por necessidades b\u00e1sicas que os impede de ter acesso \u00e0quilo que eles poderiam ter. Com isso, h\u00e1 uma queda na qualidade de vida do idoso pela configura\u00e7\u00e3o de sua fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o da cesta de compras nas necessidades b\u00e1sicas ou mesmo a insufici\u00eancia de renda para arcar com o m\u00ednimo j\u00e1 \u00e9 uma realidade para muitos entregadores e motoristas de aplicativos de transporte, entregas e sites de com\u00e9rcio eletr\u00f4nico. Presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Motofretistas de Aplicativo e Aut\u00f4nomos do Brasil, Edgar Franscisco da Silva, mais conhecido como Gringo, est\u00e1 preocupado com o futuro e o presente de seus associados, a maior parte sem a cobertura da previd\u00eancia social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 uma profiss\u00e3o em que voc\u00ea vai notando que acontecem muitos acidentes, muitos mesmo, e essa pessoa fica sem respaldo nenhum por n\u00e3o contribuir com o INSS de forma particular. Muitos t\u00eam MEI, mas s\u00e3o poucos os que mant\u00eam em dia o MEI. Ent\u00e3o, isso preocupa muito a gente nesse primeiro momento. E, em um segundo momento, a gente v\u00ea que essa galera n\u00e3o vai ter aposentadoria&#8221;, afirma. \u201cA gente quase n\u00e3o v\u00ea algu\u00e9m que fa\u00e7a contribui\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma. N\u00e3o conheci algu\u00e9m ainda que fa\u00e7a. Referente ao MEI, muitos abrem e nem sabem que est\u00e3o cobertos pelo INSS quando est\u00e3o pagando, e deixam vencer. A gente tem que fazer um trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o muito forte\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com remunera\u00e7\u00f5es que precisam dar conta dos gastos mensais das fam\u00edlias e da manuten\u00e7\u00e3o das motos, esses motofretistas muitas vezes se veem com menos de um sal\u00e1rio m\u00ednimo depois de descontados os custos para manter seu meio de trabalho funcionando. \u201c\u00c9 a\u00ed que a galera come\u00e7a a economizar com coisas necess\u00e1rias, deixando de se alimentar, deixando de fazer a manuten\u00e7\u00e3o, deixando de pagar o MEI, deixando de fazer o seguro de vida. Ele economiza com coisas necess\u00e1rias e s\u00f3 piora a situa\u00e7\u00e3o. A chance de acidente \u00e9 muito maior, e, com o acidente, precisa da previd\u00eancia\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Adoecimento<\/h2>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de arriscada, a profiss\u00e3o causa um desgaste f\u00edsico intenso, afirma Gringo, que conta que muitas vezes \u00e9 dif\u00edcil chegar a 10 anos como motofretista. Por isso, uma das reivindica\u00e7\u00f5es da categoria \u00e9 ter direito a uma aposentadoria especial. \u201c\u00c0s vezes, at\u00e9 com cinco anos de profiss\u00e3o, voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 sentindo fortes dores nas costas. Voc\u00ea cheira polui\u00e7\u00e3o o dia inteiro, est\u00e1 nessa situa\u00e7\u00e3o em que em uma hora est\u00e1 frio e, em outra, est\u00e1 calor, fica exposto a uma tens\u00e3o e estresse muito altos. Muitos vem achando que v\u00e3o passar s\u00f3 um tempo, mas esse tempo se eterniza. Mas eu falo pra eles que nossa profiss\u00e3o \u00e9 igual jogador de futebol e modelo. Tem um tempo que voc\u00ea vai exercer, mas, e depois, o que voc\u00ea vai fazer?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para o motofretista, muitos trabalhadores n\u00e3o acompanharam a discuss\u00e3o em torno da Reforma da Previd\u00eancia e n\u00e3o se deram conta das mudan\u00e7as que impactar\u00e3o suas vidas diretamente, porque estavam muito concentrados em necessidades imediatas de sobreviv\u00eancia. \u201cAs pessoas est\u00e3o mais preocupadas em estar vivas do que com o futuro. Eles n\u00e3o est\u00e3o fazendo essas contas e muitos n\u00e3o sabem nem fazer. Eu n\u00e3o tenho como pensar no que vai acontecer daqui a 10, 15 ou 20 anos, sendo que eu estou em uma situa\u00e7\u00e3o horr\u00edvel agora e estou precisando viver agora. Essa situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria faz com que a gente n\u00e3o tenha tempo para pensar no futuro. A gente v\u00ea o n\u00edvel da situa\u00e7\u00e3o quando o cara j\u00e1 est\u00e1 deixando de comprar as necessidades b\u00e1sicas. Pra ele, j\u00e1 precarizou o agora\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisadora do Centro de Estudos da Sa\u00fade do Trabalhador e Ecologia Humana da Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Cetesteh\/Ensp\/Fiocruz), M\u00f4nica Olivar relata que trabalhadores expostos a situa\u00e7\u00f5es insalubres ou perigosas est\u00e3o entre os que ter\u00e3o a sa\u00fade mais prejudicada, j\u00e1 que as aposentadorias especiais agora exigem tamb\u00e9m uma idade m\u00ednima, que vai de 55 a 60 anos, al\u00e9m do tempo reduzido de contribui\u00e7\u00e3o, de 15 a 25 anos. Antes, bastava cumprir esse mesmo tempo nos trabalhos nocivos \u00e0 sa\u00fade para ter o benef\u00edcio. Ela destaca que os mais pobres s\u00e3o os mais afetados, e que o cen\u00e1rio de idosos trabalhando para complementar a aposentadoria tende a ser mais comum, inclusive entre funcion\u00e1rios p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs reformas foram muito cru\u00e9is com a classe trabalhadora e prejudicaram principalmente os mais pobres. Trabalhadores e trabalhadoras que sempre usaram sua for\u00e7a carregando sacos de cimento nas costas, ou ambulantes que carregam mercadorias pesadas, ou catadores de materiais recicl\u00e1veis, com o passar do tempo sofrem desgaste f\u00edsico, ps\u00edquico e social e apresentam doen\u00e7as osteomusculares, mas n\u00e3o tem direito a aux\u00edlio-doen\u00e7a, porque n\u00e3o conseguem contribuir, e nunca v\u00e3o se aposentar. Essa reforma fere de morte grande parte da classe trabalhadora do pa\u00eds\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, o cen\u00e1rio torna ainda mais urgente o fortalecimento da Pol\u00edtica Nacional de Sa\u00fade do Trabalhador, criada em 2012, para que os centros de sa\u00fade do trabalhador sejam ampliados e para que todo o Sistema \u00danico de Sa\u00fade tenha aten\u00e7\u00e3o a essas quest\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c0s vezes, o trabalhador chega com uma dor de cabe\u00e7a na cl\u00ednica da fam\u00edlia, e o profissional de sa\u00fade n\u00e3o pergunta onde ele trabalha\u201d, exemplifica ela. \u201cA pol\u00edtica tem que ser colocada em pr\u00e1tica em qualquer servi\u00e7o de sa\u00fade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Publicado em 01\/05\/2023 &#8211; 13:42 Por Vin\u00edcius Lisboa &#8211; Rep\u00f3rter da Ag\u00eancia Brasil &#8211; Rio de Janeiro<\/p>\n\n\n\n<div id=\"110753\" class=\"advads-saneouro advads-entity-placement\" style=\"margin-top: 10px;margin-bottom: 10px;margin-left: auto;margin-right: auto;text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.saneouro.com.br\/noticias\/de-olho-na-saude-publica-lixo-descartado-incorretamente-pode-entupir-redes-de-esgoto\/\" target=\"_blank\" aria-label=\"Diario_Ouro_Preto_Site\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"follow external noopener noreferrer sponsored ugc\"><img src=\"https:\/\/www.diariodeouropreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Diario_Ouro_Preto_Site.jpg\" alt=\"\"  srcset=\"https:\/\/www.diariodeouropreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Diario_Ouro_Preto_Site.jpg 300w, https:\/\/www.diariodeouropreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Diario_Ouro_Preto_Site-180x150.jpg 180w, https:\/\/www.diariodeouropreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Diario_Ouro_Preto_Site-14x12.jpg 14w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" width=\"300\" height=\"250\"  style=\"display: inline-block;\" \/><\/a><\/div><p>Edi\u00e7\u00e3o: Kelly Oliveira<\/p>\n\n\n\n<div id=\"50321\" class=\"advads-plantao advads-entity-placement\"><a href=\"https:\/\/www.diariodeouropreto.com.br\/\" target=\"_blank\" aria-label=\"site &#8211; noticia\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"follow external noopener noreferrer sponsored ugc\"><img src=\"https:\/\/www.diariodeouropreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/titulosite2-e1616373489755.jpg\" alt=\"\"  srcset=\"https:\/\/www.diariodeouropreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/titulosite2-e1616373489755.jpg 1200w, https:\/\/www.diariodeouropreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/titulosite2-e1616373489755-150x38.jpg 150w, https:\/\/www.diariodeouropreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/titulosite2-e1616373489755-660x167.jpg 660w, https:\/\/www.diariodeouropreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/titulosite2-e1616373489755-768x194.jpg 768w, https:\/\/www.diariodeouropreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/titulosite2-e1616373489755-1000x252.jpg 1000w, https:\/\/www.diariodeouropreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/titulosite2-e1616373489755-1536x388.jpg 1536w, https:\/\/www.diariodeouropreto.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/titulosite2-e1616373489755-2048x517.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" width=\"1200\" height=\"303\"  style=\"display: inline-block;\" \/><\/a><\/div><p>Foto: T\u00e2nia R\u00eago <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria de Lourdes do Carmo, de 50 anos, hoje precisa pagar algu\u00e9m para preparar a barraca em que trabalha, no centro do Rio de Janeiro. 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