Deu se início na última quinta-feira (02) o Tríduo Pascal, momento especial para a liturgia cristã, que recorda os últimos dias de Jesus Cristo, conforme retratados na Bíblia. Na narrativa, a Quinta-Feira Santa retrata a Última Ceia, que ressignifica a Páscoa Judaica e instituí 3 preceitos fundamentais do que viria a se tornar o cristianismo: A eucaristia, o sacerdócio ministerial e a instauração do novo mandamento “Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado” .

Em entrevista para o Diário de Ouro Preto, Dom Airton, Arcebispo Metropolitano da Arquidiocese de Mariana, explica alguns detalhes da liturgia, como a substituição do cordeiro sacrificial da Páscoa Judaica pelo sacrifício de si próprio num gesto de serviço “Não tinha mais o corpo carneiro, nem o cabrito para ser sacrificado e usado como alimento, nem as ervas amargas e nem os pães ázimos, mas agora tinha que ele mesmo. Ele é o alimento. E ele se deu como alimento através das espécies muito simples e humildes do pão e do vinho, que são alimentos.”.

Durante a missa, o arcebispo realizou o Rito do Lava-Pés, onde ele lavou os pés de 12 fiéis presentes, em indumentária representativa a cada um dos 12 apóstolos de Jesus. O ato, de forte peso emocional e simbólico, tem como intuito rememorar aos acontecimentos da última ceia narrados pelos evangelhos bíblicos. Ao longo da homília, fez-se também menção à traição de Judas e à resistência inicial de Pedro em aceitar o ato de serviço, dado que ele se sentia indigno disso. 

Ao Diário, Dom Airton compartilhou alguns sentimentos sobre o Lava-Pés, assim como sua história no sacerdócio, “Já faz 40 anos que eu faço isso. Porque no ano passado eu completei 40 anos de padre e 24 anos de bispo neste ano, no dia 2 de março. Todo ano a gente repete o mesmo gesto, mas é como se fosse o primeiro e o último. A sensação, o modo de celebrar, o modo de fazer as coisas, é como se fosse a primeira vez que a gente estivesse fazendo isso.”.

Após a missa, foi realizada a procissão de transladação do Santíssimo Sacramento, realizada dentro da Basílica. A transladação simboliza a ida de Jesus ao Horto das Oliveiras, transicionando o tom da cerimônia do banquete eucarístico para a solidão da Paixão de Cristo. Após a celebração, foi realizado o ritual de desnudamento do altar, onde os adornos foram sendo gradativamente removidos da capela central, simbolizando o martírio de Jesus e o fim da Última Ceia.

Concluídas as celebrações, foi realizada a Procissão dos Fogaréus, que encarna o momento da prisão de Jesus, na noite que sucede a Última Ceia. A procissão conta com a presença de moradores em mantos negros portando tochas, representando a penintência do momento. O simbolismo é marcante e muito particular às paróquias históricas, como explica o padre Geraldo Buziani, Pároco da Catedral Basílica de N.Sª da Assunção, “Ela retrata esse momento da prisão de Jesus Cristo, com os penitentes levando tochas. Eles simbolizam esse momento em que se vai para a prisão de Cristo. Então, se sai da catedral em direção ao Santuário do Carmo. Ali acontece o sermão, a meditação sobre a prisão de Jesus”.

Fiéis sob a indumentária tradicional da Procissão dos Fogaréus ou Endoenças | Créditos: Anahí Santos

Após a meditação, proferida por Mons. Celso Murilo de Souza Reis, Vigário Paroquial da Catedral, a procissão segue, retornando ao ponto de partida, “Se abre a porta do Santuário e sai a imagem de Jesus atado, ele é atado e inicia-se então o percurso, levando-o para a prisão, a procissão que retorna para a catedral. É um momento de muito simbolismo, do silêncio, da prisão, da escuta”. Com o tríduo pascal iniciado, a Semana Santa segue para sua fase mais intensa,com a Sexta-Feira da Paixão (03), o Sábado de Aleluia (04) e por fim o Domingo de Páscoa (05).

Confira alguns registros fotográficos da Quinta-Feira Santa em Mariana:

Reportagem e fotos por: Anahí Santos