Angelo Oswaldo diz que Mateus Simões quer implantar uma escola cívico-militar para agradar a extrema direita, as celebridades não compareceram a solenidade

Ouro Preto – A solenidade do dia 21 de abril tem seu rito, aposição de coroa de flores no panteão dos Inconfidentes, no Monumento a Tiradentes, a salva de 21 tiros, a entrega das medalhas e os discursos do prefeito, do orador da solenidade e do governador, este ano tivemos também a fala do ex-governador. Os artistas agraciados não compareceram.


O evento ficou marcado pela rusga entre o governador, Mateus Simões (PSD), contra o prefeito, Angelo Oswaldo (PV), que fez a defesa da “ Escola Cívico Militante” e não “Cívico-Militar” como quer o governador. “Se há alguém que tem vergonha do militarismo, essa casa não o tem”, esbravejou Mateus Simões, mas não fez a defesa propriamente da escola Cívico-Militar.


Uma das bandeiras para a reeleição de Mateus Simões são as escolas Cívico-Militares. Sabendo disso, como membro da Academia Mineira de Letras, Angelo Oswaldo não perdeu a oportunidade de deixar seu posicionamento.


Tudo corria tranquilamente, os agraciados receberam suas comendas e vão começar os discursos! Angelo Oswaldo defendeu “os ideais civilistas” de Rui Barbosa, “Na noite de 19 de fevereiro de 1910, na Casa da Ópera de Ouro Preto, tomada por uma multidão, Rui arrematou o longo discurso de candidato a presidente do Brasil”.


Ao se direcionar diretamente ao governador, Angelo Oswaldo pode ter sido mal interpretado, o governador deixou entender que o prefeito era “contra a igreja, a família e aos militares”, veja abaixo o trecho do discurso do prefeito que cita as escolas como templo do conhecimento:
“Nos primórdios da República, as escolas construídas em Minas Gerais, território povoado de igrejas barrocas, dotavam-se de imponente arquitetura, nas variantes do estilo eclético. Queriam simbolizar, na linha do pensamento positivista de Auguste Comte, que o verdadeiro templo estava nas naves que abrigavam salas de aula, não altares religiosos. Notável semeador de escolas, o então presidente do Estado, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, aliou à edificação de prédios vistosos o empenho do governo em iluminar as bases do ensino, com uma professora da qualidade da pedagoga Helena Antipoff. E quis sublinhar a Inconfidência como fonte da mineiridade e do compromisso de Minas com a liberdade e a democracia, ao editar o livro de Lúcio dos Santos e erigir o monumento da Praça da Estação, em Belo Horizonte, no qual mandou inscrever em latim: “Montani semper liberi”. Os montanheses serão sempre livres”, enfatizou o prefeito da Tribuna de Honra.


Em seguida falaram o ex-governador, Romeu Zema, que criticou o Supremo Tribunal Federal e em seguida o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que foi o orador oficial, disse que Minas Gerais se destaca em todos os campos.
O governador lia suas nominatas, tranquilo, nem parecia prestar atenção enquanto, Angelo Oswaldo dava uma aula de história de Minas Gerais para ele. O embate que Mateus Simões não tinha, Angelo Oswaldo ofereceu de bandeja. Mateus Simões precisa ser visto defendendo sua bandeira. Aí o evento ganhou ritmo, Mateus Simões foi lendo a nominata e fazendo seus comentários com os convidados, sempre aplaudido, disse que Minas está livre de contas e em progresso.
Quando o governador Mateus Simões começou sua fala que pareceu ser feita de improviso, pois não leu discurso, ia falando enquanto passava as nominatas, outro fato que deixou parecer que as farpas contra o prefeito e a chamada dos Militares, teria ocorrido quando pegou a ficha com o nome do prefeito.


Mateus Simões, que é natural de Gurupi, no Tocantins, queixou-se que Angelo Oswaldo tenha feito desfeita aos seus convidados Militares e os pediu para que ficassem de pé para receberem seu respeito. Esbravejou intimidando o prefeito:
“Lamento muito que o momento tenha que ser feito assim, mas lamento muito que em Minas Gerais a cortesia de quem recebe tenha sido perdida em algum momento, pela necessidade de fazer política no momento cívico,(aumentando o tom de voz) cívico e militar independente de quem governa”.
E continua, “é importante que nós lembremos, apesar do ataque feito aos militares e à família, para não esquecer uma crítica muito clara também feita à Igreja, que família é a base da nossa sociedade”.
Em seguida, pediu a Soldado Helem que se levantasse, tirou o microfone e saiu do púlpito em direção a ela, se aproximando do prefeito, enquanto contava a história da soldado, que amamentou uma criança abandonada, na ocorrência que trabalhava.


Quando voltou ao púlpito, disse que orgulho de governar Minas Gerais, “depois do senhor”, que recebeu de herança o legado de Zema, “quando me entregou Minas Gerais, que felicidade para mim ter sido herdeiro do senhor, recebendo uma herança tão diferente, daquela que o senhor recebeu há oito anos atrás” e encerrou a solenidade.


Após o evento, Angelo Oswaldo concedeu entrevista ao diário de Ouro Preto, afirmou que a escola Mineira sempre foi exemplar no contexto da educação nacional, uma escola de vanguarda. “ Eu defendi essa escola, porque o governador Mateus Simões tem um projeto de extrema direita, sobretudo para agradar a extrema direita, os radicais da extrema direita do Brasil, uma escola cívico militar, eu disse que nós queremos a escola cívico militante[…] ele de uma maneira grosseira, mal educada, deturpando e deteriorando as minhas palavras, fez até a chamada dos militares presentes, ele que ofendeu os militares”.


Para Angelo Oswaldo quem ofendeu os Militares foi o Governador ao fazer a chamada. “Hoje as forças armadas brasileiras estão pacificadas e coesas […] queremos escolas cívico militantes, queremos militar no civismo com uma educação aberta, democrática, culta e não uma educação que ele quer impingir ao estado para agradar a Extrema direita do Brasil”, afirmou.
Segundo o prefeito, Mateus Simões é um homem equivocado e grosseiro e por isso eu também quero render a minha homenagem aos militares presentes, aos militares brasileiros num modo geral, porque as forças armadas estão hoje pacificadas. Hoje faz 41 anos que o presidente Tancredo Neves faleceu e ele morreu exatamente como Tiradentes também pela Liberdade pela democracia do Brasil”.


Durante seu discurso, Angelo Oswaldo se dirigiu ao governador perguntando: “Que escola mais potente que essa para formar as cidadãs e os cidadãos conscientes de que Minas e o Brasil tanto necessitam? Para que a aula seja adequadamente ministrada, necessário se impõe que a sua pedagogia se estenda pelas vastidões do Estado, fazendo da escola mineira um modelo para a formação cívica e cultural de cada geração. Uma escola cívico-militante, não militarista, como pregava a campanha civilista de Rui Barbosa.”
Saiba Mais – Angelo Oswaldo citou a pedagoga russa, Helena Antipoff, que se radicou no Brasil em 1929, a convite do governo Mineiro, com o objetivo de fundar uma Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico, ela foi contratada como professora de Psicologia, sendo responsável pela implantação de variado programa de estudos sobre o desenvolvimento mental, os ideais e os interesses das crianças mineiras. Com o resultado dessa investigação promoveu a introdução de testes de inteligência nas escolas primárias e o alargamento do processo de homogeneização das turmas. Ela faleceu em Ibirité, em 1974.


Por Marcelino Castro