Projeto de ampliação dos hidrantes segue travado por pendências técnicas, enquanto sistema atual não atende normas e amplia riscos ao patrimônio histórico
Passados 23 anos do incêndio que destruiu o Hotel do Pilão, Ouro Preto ainda não conta com uma rede de alta pressão capaz de atender ocorrências de grande porte, especialmente no centro histórico. O projeto de ampliação do sistema de hidrantes segue sem avanço, com pendências técnicas apontadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e falta de urgência por parte do poder público, enquanto o Corpo de Bombeiros aponta que a estrutura atual não atende às normas estabelecidas.
De acordo com o IPHAN, a última versão do projeto de extensão do sistema de hidrantes subterrâneos foi analisada por meio de parecer técnico, que identificou diversas pendências documentais e técnicas. O parecer técnico foi emitido em 26 de setembro de 2025, e, segundo o órgão, as complementações solicitadas ainda não foram apresentadas, o que impede a continuidade da análise e eventual aprovação. Até o momento, não foi estabelecido pelo IPHAN um prazo para que o projeto retornasse com as correções e complementações exigidas. A conclusão do processo, portanto, depende diretamente do envio dessas adequações pelo Executivo municipal.
O Instituto também destaca que a medida é considerada necessária para a segurança do conjunto tombado. No entanto, a execução deve seguir critérios específicos para minimizar impactos na ambiência urbana, como o posicionamento dos equipamentos, escolha de materiais e acompanhamento arqueológico durante as intervenções.
A ausência ou limitação dessa rede é apontada como um fator de risco. Segundo o IPHAN, características como a topografia acidentada e as vias estreitas dificultam o acesso de veículos maiores em situações de emergência e podem favorecer o alastramento de incêndios. Nesse contexto, a ampliação da rede de hidrantes é considerada essencial para aumentar a eficiência no combate ao fogo.
Do ponto de vista operacional, o Corpo de Bombeiros confirma que o sistema atual é insuficiente, como retrata o Capitão Torres, Comandante da 2ª Cia Op/1ºBBM:
“Atualmente, o sistema de hidrantes públicos do município de Ouro Preto é limitado, contando com 11 hidrantes públicos, sendo um localizado no distrito de Cachoeira do Campo e os demais distribuídos, majoritariamente, na região do Centro Histórico. De acordo com o item 5.2.5 da Instrução Técnica nº 29 do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais, os hidrantes públicos devem ser implantados de forma a atender toda a área urbana e distritos do município. Ademais, conforme o item 5.3.3 da ABNT NBR 12218:1994, recomenda-se que os hidrantes sejam instalados com espaçamento máximo de 600 metros”.
Sobre o hidrante que estava seco no dia do incêndio do Pilão, hoje ele tem vazão satisfatória, de acordo com a vistoria realizada pelos Bombeiros em Março. A observação feita na vistoria é que ele não está sinalizado, com a pintura e é uma rede ser subterrânea, o que causa dificuldades de acesso, ou seja, ele deveria ser um hidrante de coluna.
Com isso, um descaso com a rede de hidrantes da cidade se evidencia. Diante dessas limitações, os bombeiros precisam adotar estratégias alternativas em ocorrências, como o uso simultâneo de viaturas de combate a incêndios e o uso de caminhões-pipa, além do apoio de sistemas internos das edificações, que nem sempre são existentes ou eficazes. Apesar de não ter participado da elaboração do projeto, o Corpo de Bombeiros apresentou recomendações técnicas para sua viabilização, como a expansão da rede para todo o município, a adoção de hidrantes de coluna com capacidade adequada de vazão e a alimentação do sistema por múltiplos reservatórios, evitando dependência de um único ponto.
Relembrado nas discussões públicas e em matérias recentes, o incêndio do Hotel do Pilão segue como símbolo das fragilidades no combate a incêndios em Ouro Preto. Mais de duas décadas depois, a ausência de uma rede de alta pressão continua sendo apontada como um dos principais entraves para a proteção não só do patrimônio histórico, mas sim para toda a extensão do município.
Saiba Mais – Em retorno à nossa reportagem, nesta quinta-feira 8/04, a assessoria do responsável pela 1ª Promotoria de Justiça, Dr. Emmanuel Levenhagem, informou que uma reunião está marcada com o representante da empresa e a Procuradoria Jurídica da Prefeitura. Procurada a Saneouro informou que “Sobre os hidrantes, a Saneouro é responsável pela manutenção dos hidrantes. Quem checa e monitora e indica necessidade de manutenção é o Corpo de Bombeiros”, não responsável pela instalação da rede de Alta Pressão. A reportagem procurou a Prefeitura, a informação que obtivemos é que o projeto está sob a responsabilidade da Secretaria de Obras. Aguardamos a manifestação até o fechamento desta edição às 20h00, porém não recebemos retorno em tempo.
Na foto: Manchete da Capa de 14 de abril de 2005: “Incêndio que consumiu o Hotel Pilão completa dois anos hoje, mas o hidrante continua seco, como naquele fatídico dia” – Arquivo diário de Ouro Preto



