As ruas do centro histórico de Mariana foram tomadas por uma procissão misteriosa na madrugada do último sábado (04). Trata-se da Miserere, mais conhecida como Procissão das Almas, tradição folclórica marianense que remonta ao ano de 1987 (de forma registrada) e que desde então nutre mistério e fascínio na população da cidade. A reportagem do Diário de Ouro Preto foi à campo e acompanhou de perto a Procissão de Almas deste ano, que pela primeira vez na história foi colocada no calendário cultural oficial do município, conforme noticiado pelo Diário.
Como de costume, a procissão partiu da Capela de Nossa Senhora dos Anjos, erguida pela Arquiconfraria do Cordão de São Francisco entre os séculos XVIII e XIX, importante patrimônio histórico e cultural de Mariana que conta com um cemitério, ampliando a mística da procissão. O percurso, então, segue pelo coração do centro histórico marianense, visitando as Igrejas de Nossa Senhora das Mercês, na Rua das Mercês, Nossa Senhora da Assunção, na Praça da Sé, e Nossa Senhora do Carmo e São Francisco de Assis, na Praça Minas Gerais. Por fim, a correição de almas retorna para o seu ponto de partida.
Ao passar por cada templo, a procissão pausa de forma solene e realiza orações destinadas às almas penadas e, realizados os cânticos, seguem pelas ruas de Mariana, entoando cânticos, sibilares e marchas fúnebres performadas por membros da Banda União XV de Novembro. A procissão também conta com outros elementos misteriosos que ampliam seu folclore, como as velas, ossos, matracas e caveiras carregadas pelas almas.

Embora não seja uma procissão religiosa – como bem explicado por uma de suas fundadoras, a autora marianense Hebe Rôla – a procissão espelha vários aspectos da tradicional Encomendação das Almas, prática com origens no período colonial e que em Mariana se envereda à lenda da Procissão dos Irmãos Franciscanos, descrita pelo folclorista Waldemar de Moura Santos em 1967 no primeiro volume da coleção Lendas Marianenses. É desta procissão que se origina a prece Dai-lhe, Senhor, o descanso eterno e brilhe para ele/ela a vossa luz, descanse em paz. Amém, entoada também pela Miserere.
Organizada pelo Movimento Renovador de Mariana, a Procissão das Almas tem amplo apelo popular e contou com a presença de muitos marianenses e visitantes, interessados na tradição. Um dos moradores que tornou-se “Alma Penada”, Pedro Martins, relatou ao Diário sua experiência, “Esse foi o meu segundo ano na Procissão das Almas de Mariana e é sempre uma experiência muito boa. Você poder fazer parte da história, daquilo que é a tradição, não só aqui do nosso município, mas do estado de Minas Gerais”. Pedro também compartilhou que pretende seguir vindo à procissão, “São 30 anos, né, de tradição e o movimento renovador tem mantido essa tradição viva aqui na nossa cidade. E agora restam 5 anos, né? Eles dizem que se você vem pela primeira vez, você precisa vir por 7 anos”.
Outro marianense presente na procissão foi Leandro Pablo, professor e músico na banda União XV de Novembro, que participa da Miserere. “Eu já toco na Procissão das Almas há mais de 10 anos, Já se tornou uma tradição os músicos da sociedade musical União XV de Novembro tocarem na Procissão das Almas, que é uma tradição muito forte aqui na nossa cidade, né? Um momento de reviver e recontar essas lendas que são tão importantes para o imaginário popular, para preservação da cultura da nossa cidade.”.
Com o reconhecimento da Procissão das Almas pelo poder público, a expectativa é que a tradição possa seguir recebendo apoio e se perpetuando pelos próximos anos, de modo a manter viva uma prática que remonta à história, geografia e folclore marianense. Como sempre, todo apoio e participação são bem-vindas, como bem diz Hebe Rôla, uma de suas fundadoras, “vem quem quer, fique se quiser”.
Confira alguns registros fotográficos da Miserere:





















