Na caminhada mensal de conversas rumo ao Dia Internacional Contra a violência contra mulheres e meninas, a cada dia 25 abordaremos alguns pontos que destacamos a partir de observações e vivências.

São impressões pessoais, colhidas ao longo da vida e que, por esse motivo, tornam-se passíveis de contestações. Isso é bom, porque gera o debate, provoca a reflexão.

O ativismo em torno desta temática acontece de forma multifacetada, assim como é a sociedade em que vivemos. Não se trata de um conformismo com o destino, como se a todo tempo nós, mulheres, tivéssemos que provar que as tantas violências que nos acometem também se dão desta forma. Trata-se, apenas, de inserir na pauta do cotidiano o que os noticiários já nos apontam.

Diante disso, poderia haver pessoas saudosistas, a referir-se aos tempos hodiernos como mais complexos, mais violentos, menos tolerantes em contraposição aos tempos idos. Sabemos que não.

As violências sempre aconteceram. As formas de violências também. Entretanto, o crescente incremento de tecnologias tem provocado dispersão e ansiedade, comprometendo, sobretudo, as relações intra e interpessoais.

Os noticiários são fartos de fatos alarmantes e assustadores acerca dos feminicídios. Basta um “clic” para obtermos dados estatísticos impressionantes. A Inteligência artificial, tão disseminada na busca de respostas inteligentes a tão grave problema, é capaz de fornecer dados estatísticos, gráficos, receitas e prognósticos.

Ocorre que a IA, apesar de competente no fornecimento de informações, não é capaz de sentir o que o corpo de uma mulher sente diante das violências. Somente pessoas humanas podem se identificar com a dor e a alegria de outra pessoa.

Sentir com o outro, a sua dor e, a partir desse gesto concreto, agir solidariamente é uma capacidade que toda a IA com seus milhares de dados armazenados não pode realizar. A indignação com cada gesto de violência é uma manifestação humana e é isso que nos humaniza. Neste processo de alteridade, surge a capacidade de denunciar, acolher, impedir as repetições, a naturalização e banalização do ato violento.

Se por um lado, a IA não sente o que sentem as mulheres agredidas em todas as dimensões, por outro, pode tornar-se um instrumento de comunicações e resistência.

Somos resistência quando afirmamos que o “não” é “não”.

Somos resistência quando nos valemos de espaços que proporcionam o debate e o aprendizado do respeito, do basta!

Somos resistência quando vemos, nos rostos e corpos femininos, um ser humano que tem o direito à vida sem violência.

Somos resistência quando fazemos memória de todas as mulheres mortas pela simples condição de serem mulheres.

Nossas vozes devem se fazer ecoar enquanto houver a ameaça às nossas vidas.

Sigamos, pois, determinadas, resistentes, destemidas, como as tantas Mulheres ancestrais que nos precederam.

Maria da Glória dos Santos Laia

Doutora em Educação

Maio/2026