Estudo revela que falta de reconhecimento do trabalho das mulheres na pesca artesanal dificulta acesso a políticas de reparação e perpetua desigualdades econômicas nas comunidades atingidas
Os impactos do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, continuam sendo tema de pesquisas que buscam entender as consequências do desastre para as comunidades atingidas. É o caso da dissertação defendida por Raniere Sabará, mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Sustentabilidade Socioeconômica Ambiental (PPGSSA) da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). O estudo analisou os efeitos econômicos do rompimento sobre a pesca artesanal na Bacia do Rio Doce, com foco nas mulheres que atuam nessa atividade.
Intitulada “Autonomia econômica das mulheres da cadeia da pesca artesanal atingidas pelo rompimento da barragem do Fundão”, a pesquisa foi realizada sob orientação da professora Fernanda Faria. A dissertação propõe que as políticas de reparação passem a considerar melhor a realidade das mulheres na pesca artesanal, reconhecendo diferentes formas de trabalho e buscando reduzir desigualdades.
O estudo mostra que a interrupção da pesca provocou uma queda significativa na renda das famílias que dependiam dela. A pesquisa também indica que as políticas de reparação têm dificuldade para reativar a atividade, principalmente quando se trata de garantir renda e autonomia para as mulheres.
GÊNERO
A dissertação aponta que o trabalho feminino na pesca artesanal muitas vezes não é reconhecido, o que dificulta o acesso dessas mulheres às políticas de reparação. Nesse sentido, Raniere explica que, “do ponto de vista econômico, o primeiro ponto que precisaria mudar é a forma como o trabalho é reconhecido”. Isso porque, segundo ela, “as políticas de reparação operam com uma definição estreita de atividade produtiva, baseada em ocupações formais e individualizadas, enquanto a pesca artesanal — especialmente no caso das mulheres — se organiza em torno da pluriatividade, do trabalho familiar e de funções historicamente invisibilizadas”, acrescentando que, sem a incorporação dessas “dimensões, qualquer critério de elegibilidade continuará produzindo subcobertura”.
Entre os resultados da pesquisa, estão o aumento da informalidade e a exclusão de parte das mulheres das políticas voltadas à retomada da atividade. O estudo também mostra que a falta de ações sensíveis às questões de gênero pode dificultar a reconstrução das condições de trabalho e renda nas comunidades atingidas. Além disso, “a pesquisa ajuda a evidenciar uma dimensão menos visível dos impactos do rompimento, relativa à forma como as perdas econômicas se reorganizam ao longo do tempo e dentro das próprias famílias”, explica a pesquisadora. “Para além dos danos imediatos, os dados mostram um processo contínuo de redução de renda, mudança forçada nas ocupações e fragilização dos meios de vida na pesca artesanal”, destaca Raniere.
Fonte: Assessoria Ufop
Foto: Reunião com representantes do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) para dialogar sobre o PROPESCA e a atividade pesqueira na Bacia do Rio Doce em agosto de 2025 – Por Aedas



