Público lotou o Espaço Democrático José Aparecido de Oliveira, na abertura da etapa final do Fórum Minas Sem Miséria, que teve palestra magna do padre Júlio Lancellotti
“Não devemos baixar a guarda diante da pobreza”. O apelo foi feito pelo padre Júlio Lancellotti, vigário da Pastoral do Povo da Rua em São Paulo (SP), na abertura da etapa final do Fórum Técnico Minas sem Miséria, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), nesta quarta-feira (4/03).
O Parlamento mineiro realiza o evento em conjunto com entidades parceiras da sociedade civil e do poder público, atendendo a requerimento da presidenta da Comissão de Direitos Humanos, deputada Bella Gonçalves (Psol). As atividades seguem até o dia 6 de março, com grupos de trabalho e plenária final.
Padre Júlio falou sobre cultivar uma “esperança teimosa” mesmo diante das perseguições ou da resistência das elites que insistem na manutenção da desigualdade social. O padre já teria sido vítima, reiteradamente, de retaliações de agentes políticos devido ao trabalho juntamente a abrigos e cozinhas comunitárias na capital paulista.
O vigário disse que a convocação a não baixar a guarda diante da pobreza está na “Exortação Apostólica Dilexi Te, do Santo Padre Leão XIV, sobre o amor para com os pobres.” Segundo ele, o Papa Leão XIV ensina que o amor aos pobres deve ser vivido com ações concretas. Deu como exemplos o fomento a restaurantes populares e demais equipamentos destinados à população em situação de rua ou àquela que vive em extrema vulnerabilidade.
Ele defendeu a misericórdia como categoria política. “Precisamos sair da lógica neoliberal em prol da lógica da misericórdia”, declarou. Para ele, o capitalismo está também na maneira de pensar. “Deixo aqui um convite para pensar fora desse sistema. Vamos ser desobedientes de uma ordem injusta”, acrescentou.
Para o padre Júlio Lancellotti, “a miséria não é um fato que surge de repente, mas se faz na história”. Ele disse que a escassez de alimentos e água potável e a falta de acesso à moradia decorrem dos sistemas político e econômico forjados ao longo de anos: “A luta que agrega todas as demais é a luta contra a desigualdade social”.
Parlamentares fazem críticas ao desvio de recursos do Fundo de Erradicação da Miséria
A deputada Bella Gonçalves lembrou a trajetória do Fórum Técnico Minas sem Miséria e das demais medidas de iniciativa da ALMG para construir políticas públicas de combate à pobreza no Estado. “Nós cumprimos nosso dever, mas o governo estadual não”, lamentou a parlamentar.
Ela explicou que a Lei 19.990, de 2011, que criou o Fundo de Erradicação da Miséria (FEM), é resultado direto do Seminário Legislativo Pobreza e Desigualdade, promovido pelo Parlamento Mineiro naquele ano. Contudo, segundo a deputada, os recursos do fundo são sistematicamente desviados da finalidade.
“Com R$ 1 bilhão por ano, esse valor deveria custear programas e ações de erradicação da pobreza, mas o governo deixa de aplicar R$ 300 milhões.” Ela acrescentou que o Poder Executivo estadual alega estar autorizado a remanejar 30% do orçamento do FEM.
Além de não aplicar o montante do FEM integralmente em políticas públicas da área, o Plano Mineiro de Combate à Miséria, previsto na norma já mencionada, não foi sequer criado. “O objetivo aqui é justamente envolver a sociedade na elaboração deste plano”, ressaltou a deputada.
Ela enfatizou que foram ouvidas cerca de 2 mil pessoas nos encontros regionais do fórum em 2025, nas cidades de Juiz de Fora (Zona da Mata), Montes Claros (Norte), Araçuaí (Jequitinhonha), Uberlândia (Triângulo) e Betim (RMBH), e foram coletadas 300 propostas, que darão origem ao plano. “Queremos renda básica universal nos moldes em que foi apresentada pelo deputado estadual Eduardo Suplicy (PT-SP)”, pontuou Bella Gonçalves. Suplicy participou da abertura do fórum, no ano passado.
Fonte: Assessoria ALMG
Foto: Daniel Protzner/ALMG


