Ontem, quarta-feira (02), fiéis marianenses realizaram o tradicional Ofício de Trevas na Catedral Basílica de Nossa Senhora da Assunção. Antes da cerimônia, foi realizada a Santa Missa na Igreja de Nossa Senhora do Carmo e uma procissão, que levou a imagem de Nossa Senhora das Dores até a Catedral da Sé de Mariana, atravessando o coração do centro histórico marianense. O percurso contou com cânticos de centenas de fiéis, acompanhados pelo cortejo da Sociedade Musical Dezesseis de Julho, que performou melodias sacras de forma sublime junto aos fiéis.

Na Catedral da Sé foi proferido o Sermão da Soledade, conduzido pelo padre Rodrigo Souza da Silva, Secretário do Regional Leste 2 da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ao longo do sermão, o presbítero enfatizou a importância do silêncio de Maria na noite que Jesus fora levado ao calvário, conforme descrito pela narrativa bíblica. Através das passagens, o sacerdote explicou a importância do silêncio e da perseverança como virtudes necessárias para atravessar momentos de sofrimento, como o de uma mãe antecipando a morte de seu filho.

Padre Rodrigo Souza da Silva durante o Sermão da Soledade | Créditos: Anahí Santos

Ainda em relação a essas virtudes, o padre reconheceu e elogiou a tradição de fé presente em nossa região, “Essa terra mineira, marcada pela profundidade religiosa, conhece bem o valor do silêncio e da perseverança. As procissões da Semana Santa, os passos lentos, o silêncio, tudo isso expressa a espiritualidade cristã”. A importância dessas tradições se mostra especialmente presente no Ofício de Trevas, também como Tenebrae, descrito como  uma das tradições mais particulares da Semana Santa pelo Arcebispo Metropolitano de Mariana, Dom Airton José dos Santos. 

Ao longo do Ofício, são realizados cânticos em latim enquanto vão se apagando, uma a uma, 15 velas de um candelabro especial, que representam Jesus, os 11 apóstolos fiéis, Maria, mãe de Jesus, Maria Madalena e Maria de Coplas. O ritual remonta aos primórdios do cristianismo e com o tempo foi se tornando menos comum fora de comunidades históricas. Desse modo, o Ofício de Trevas como é praticado em Mariana, Ouro Preto e região segue sendo uma importante forma de preservação de práticas históricas milenares do catolicismo.

Em entrevista para o Diário, Padre Rodrigo comentou sobre a importância das tradições marianenses na Semana Santa, dizendo “Esta é para a nossa igreja uma grande força, um grande sinal e que nós precisamos cuidar e fazer cada vez mais por esse patrimônio imaterial […] Nós acreditamos na tradição com T maiúsculo, mas não somos tradicionalistas a ponto de querermos tão somente encenar alguma situação, algum momento, mas com a nossa fé, nós fazemos memória e esses momentos que nos ajudam muito a rezar, a meditar para contemplar a palavra de Deus que precisa quanto mais ser cuidados e preservados”.

Paulo Francisco de Jesus, um dos fiéis presentes nas cerimônias da Quarta-Feira Santa, relatou ter se comovido muito pelo sermão do padre Rodrigo, “O que mais me tocou foi o sermão do padre e agora o Ofício das Trevas, que estou participando pela primeira vez”. Ele também demonstrou grande sensibilidade com a procissão de Nossa Senhora das Dores, realizada na terça-feira (31/03) e coberta pelo Diário, “apesar de um pouco de chuva, o povo ainda foi fiel, né?”. Ele também relatou o aumento no número de fiéis em relação aos anos anteriores, “cada vez mais está aumentando a presença do povo nas procissões que andava meio sumido, mas agora está retornando”.

A Semana Santa continua em Mariana, chegando a seus últimos dias onde acontecem as celebrações mais emblemáticas, como a Procissão Penitencial dos Fogaréus, realizada na quinta-feira de hoje (02/04) e as celebrações do tríduo pascal, com a Sexta-Feira da Paixão (03/04), Sábado de Aleluia (04/04) e Domingo de Páscoa (05/04). A expectativa é que a presença do público siga se intensificando ao longo das celebrações mais importantes da Semana Santa.

Seguem alguns registros fotográficos da Quarta-Feira Santa em Mariana:


Reportagem e fotos por Anahí Santos