A população de Mariana está se antecipando para mais uma Procissão das Almas. A tradição folclórica marianense também é conhecida como Miserere e ocorre desde 1987, atravessando gerações, intrigando os espectadores e rememorando os entes queridos que ainda estão no purgatório, conforme apontam os populares. A procissão é realizada anualmente, na madrugada que separa a Sexta-Feira da Paixão e o Sábado de Aleluia e é um dos grandes destaques da Quaresma na região.
A edição deste ano é especialmente importante por ser a primeira realizada após a criação da Lei N°3.898/2026, que reconhece o evento de forma oficial no calendário de eventos local e garante o apoio à manifestação por parte do poder público. De acordo com a Secretaria de Cultura de Mariana, esse mecanismo legal também permite que a celebração usufrua de fundos do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Mariana (COMPAT), que viabilizam desde a realização da manifestação até ações de registro, organização e transmissão dos saberes tradicionais.
Hebe Rôla, professora, autora, folclorista e uma das principais organizadoras da procissão, participando do processo desde a primeira edição documentada da Miserere, em 1987. Nela, Hebe encarna a Mulher da Pena, um dos símbolos da procissão juntamente à figuras como A Morte, O Sineiro, O Matraqueiro, Os Músicos e A Cruz. Além de participar e auxiliar na organização, Hebe também se dedica ao trabalho educacional, registrando e ensinando as tradições, ritos e histórias da Miserere, tendo escrito o livro “Procissão Das Almas” em 2021 e atuando na educação de crianças e adolescentes através do Instituto Floresça Mariana, ao qual ela preside.
Nesta quarta-feira, Hebe esteve presente juntamente à Raimunda Dos Anjos, a Dica, que é vice-presidente do Movimento Renovador de Mariana, que organiza a procissão para dar uma palestra para as jovens alunas do Instituto Floresça Mariana num evento público realizado na sede da Secretaria de Cultura de Mariana. Juntas, elas rememoram histórias marcantes da procissão, ensinaram os costumes e ritos e trocaram experiências e diálogos com as crianças e adolescentes ali presentes. No alto de seus 94 anos, Hebe pôde transmitir de forma vivaz e irreverente seus conhecimentos, experiências e vivências para suas alunas e para a reportagem.
Em entrevista para o Diário de Ouro Preto, Hebe nos contou a história da Procissão e evidenciou a natureza folclórica da celebração, trazendo o lema “vem quem quer, fique se quiser”. Ela também rememorar causos marcantes, como o de um homem que alegou ter recebido a graça e ter ficado curado de sua enfermidade, jogando fora as muletas e andando após cumprir 7 anos de promessa, uma tradição da procissão. Casos como esse tanto fascinam quanto assustam a organizadora, que entende na procissão uma manifestação puramente folclórica que, mesmo marcada pela espiritualidade e pela fé, não se propõe a realizar milagres e conceder graças.

Embora o primeiro registro documentado da procissão date de 1987, é sabido que a Procissão das Almas se inspira ou até mesmo se origina de tradições centenárias, como as Encomendações das Almas do período medieval, como explicado no livro. Como Hebe explica em seu livro, a Procissão das Almas em Mariana se origina a partir da encenação de práticas vistas em Encomendas e Missas de Corpo Presente que ocorriam na cidade como a participação espontânea da população e a execução de marchas fúnebres e lamentos compostos por músicos da região.
Por Anahí Santos
Foto: Ailton Fernandes

