A Festa do Reinado de Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia e São Benedito também foi espaço de literatura, memória e reflexão sobre a presença negra em Ouro Preto. Na noite da última segunda-feira, 5 de janeiro, a Casa de Cultura Negra recebeu o lançamento de obras literárias que integram a programação oficial da festa, realizada de 4 a 11 de janeiro no município.
Moradora de Ouro Preto, nascida e criada no bairro Veloso, Sidnéa Francisca Santos é uma das autoras que participaram do lançamento. Mulher preta, pesquisadora e escritora, Sidnéa constrói sua trajetória a partir da vivência no território ouro-pretano e da curiosidade despertada ainda na infância pelos vestígios da mineração e pelas histórias silenciadas da população negra da cidade.

As experiências no Veloso, onde cresceu cercada por minas, aquedutos e estruturas da mineração do século XVIII, tornaram-se base para sua produção intelectual e literária:
“Tudo isso povoou sempre a minha memória e o meu desejo de contar essa história”.
Segundo Sidnéa, a escrita surge também como forma de tornar acessível o conhecimento produzido na academia:
“Meu maior desejo com essas publicações é que as pessoas, principalmente de Ouro Preto, tenham acesso a esse conhecimento, mas com uma linguagem compreensível”.
Durante o evento, foram lançados dois livros escritos por Sidnéa. Um deles é “Pisa nesse chão devagarinho”, obra autoral que propõe um olhar sensível sobre o território, a ancestralidade e a memória negra. O outro é “Reinados Negros de Ouro Preto – Fé, Força e Resistência: A Força Sagrada dos Tambores”, publicado em coautoria com Kátia Silvério e Amanda Melissa, resultado de um trabalho coletivo construído por mulheres e dedicado à fé, às guardas de congado e às tradições do Reinado.
O lançamento aconteceu após a exibição do documentário “Que Bandeira Bonita que Bandeira é Essa”, que aborda o reencontro de uma bandeira de mastro em ferro ligada às antigas irmandades negras coloniais. A programação contou com a presença do prefeito Angelo Oswaldo e integrou as atividades culturais da Festa do Reinado, reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial de Ouro Preto desde 2019.
Ao reunir literatura, audiovisual e tradição religiosa, o evento reafirmou o Reinado como espaço de resistência, produção de conhecimento e valorização da ancestralidade negra. Para Sidnéa, falar dos reinados é também falar de identidade e pertencimento (“é falar dessa força ancestral que move a minha caminhada, que me significa enquanto pessoa e que me permite partilhar isso com quem está ao meu redor”).


