Por Adilson Santos

Oito de julho de 2025, Ouro Preto, cidade Patrimônio Cultural da Humanidade, celebra seus 314 anos de elevação à Vila Rica de Albuquerque. Sou muito grato e feliz por ter sido acolhido nessa cidade tão importante do Brasil e do mundo.


Uso este espaço nessa data para registrar minha singela homenagem a uma ouro-pretana que muito me ensinou e ensina, e cujo legado para a luta antirracista nessa cidade colonial é inconteste.
Falo da Restauradora aposentada Marcia Conceição Valadares, nascida num dia 20 de novembro de meados do século passado, e que tem a sua biografia confundida com a história dos debates raciais na cidade de Ouro Preto.


Nascer no dia em que se celebra a Consciência Negra, uma referência à luta travada por Zumbi dos Palmares na Serra da Barriga, não é para qualquer um. Tinha que acontecer com a nossa estimada Márcia. Essa mulher cuja voz (ou grito) na direção do combate ao racismo e na luta pela promoção da igualdade racial ecoa em alto e bom som.


Por certo, Ouro Preto, teve e tem outras mulheres e homens que mereciam tal deferência da minha parte. A escolha de Márcia, deve-se à coincidência de o ano de 2025 ser também aquele em que se celebra duas décadas que a cidade queimou sua bandeira racista.


Para quem não conhece a história, no ano de 2005, sensível à mobilização da população negra de Ouro Preto, o prefeito Angelo Oswaldo, acolheu uma provocação do Fórum de Igualdade Racial (Firop) e propôs um Projeto de Lei à Câmara Municipal propondo a alteração da insígnia dos símbolos oficiais do Município.


Ouro Preto, uma cidade na qual quase 70% dos habitantes se autodeclaravam como negros, até 2005 tinha uma bandeira grafada: Proestosum Tamén Nigrun. Durante anos este texto incomodou poucas pessoas, Márcia Valadares era uma dessas. Para ela, a expressão latim “Tamén” guardava consigo uma conotação preconceituosa inaceitável. Com a mudança nos símbolos oficiais lê-se doravante: Proestosum Aurun Nigrun.*

Foto: arquivo diário de Ouro Preto


Seu incomodo foi compartilhado com os(as) ativistas do Firop que a ela se juntaram no intuito de propor uma revisão dessa história na cidade. A conjuntura estava influenciada pelos ecos de Durban que refletiam em Ouro Preto. A partir da província de Vila Rica, emergia, no limiar do Século XXI, um grito pela reparação histórica. Na vanguarda estava Márcia Valadares, militante antenada com o que acontecia na África do Sul, onde ocorrerá a Terceira Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, realizada em Durban, África do Sul, em 2001.


Além da Lei Nº 136/05 que alterou a Lei Nº 045/1949 que modificou a legenda latina dos símbolos municipais de Ouro Preto, Márcia Valadares e o Firop estiveram na vanguarda de uma virada da leitura racial na cidade. Contribuíram para criação das Diretrizes Curriculares Municipais de Educação Patrimonial e para e das Relações Étnico-Raciais e Afro-Brasileira, aprovação da Semana Municipal de Anemia Falciforme, instituição do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial, da Diretoria de Promoção da Igualdade Racial, Dia do Hip Hop, Cotas na Universidade Federal de Ouro Preto, resgate da festa do Reinado do Alto da Cruz, Construção da Casa da Cultura Negra, entre outras.


Por ter ajudado a romper com o silêncio de uma Ouro Preto onde as relações raciais seriam supostamente harmoniosas, utilizo este importante espaço para destacar o protagonismo desta ouro-pretana que muito bem representa este lugar de valor global.

*Nota sobre a bandeira adicionada à coluna pela redação para mera contextualização: Segundo a Prefeitura de Ouro Preto havia um projeto de alteração dos dizeres da Bandeira oficial do município em 2001, porém foi arquivado. A Bandeira é apresentada junto ao Hino da cidade no site oficial da Prefeitura, veja um trecho:

“Sua Bandeira é uma representação da forma como o ouro era encontrado na época dos bandeirantes: envolto por uma camada escura de óxido de ferro. O estandarte é divido em duas partes: um lado preto, representando o óxido de ferro que cobria as pepitas, e outro amarelo-ouro, representando as riquezas e o ouro em abundância encontrados na região. O triângulo verde, colocado no centro, une as duas partes. A cor representa a esperança em dias melhores, as matas e florestas. Ao redor do triângulo, havia antes a expressão  “Proetiosum Tamen Nigrum” (Precioso, Embora Negro), que por anos foi fortemente criticada pelo seu caráter preconceituoso e pejorativo em relação aos negros. Em 2001, houve uma tentativa de mudar a inscrição da bandeira para “proestiosum et nigrum” (Precioso e Negro), mas o projeto foi retirado de pauta após a Câmara concluir que isso não alteraria a carga negativa do texto. A Lei foi alterada somente em novembro de 2005, quando, durante uma solenidade no dia da Consciência Negra, a frase foi oficialmente substituída por “Proetiosum aurum nigrum” (Precioso Ouro Negro) e a antiga bandeira foi queimada.”