Em 2026, a comunidade segue mobilizada para fortalecer e ampliar os festejos, consolidando-os na Igreja de Nossa Senhora do Rosário como um espaço de devoção, memória e resistência cultural. Um marco importante desse processo foi a promulgação da Lei nº 4.090, de 10 de março de 2026, que incluiu a Festa de São Benedito no Calendário Oficial de Eventos do Município de Mariana. A legislação reconhece o caráter religioso, cultural e histórico da celebração, destacando sua importância para a preservação das tradições afro-brasileiras, o fortalecimento da identidade da população negra, a valorização do patrimônio histórico e artístico e o incentivo ao convívio comunitário e ao turismo cultural.

A programação da festa reafirma seu caráter diverso e agregador. No dia 18 de abril, das 15h às 17h, haverá apresentação do Grupo Rosa Negra, além de uma feira de produtores locais. À noite, o grupo Só Pagode promete animar a celebração, ampliando o alcance cultural do evento.
No dia 19 de abril, evidenciando ainda mais seu caráter comunitário, a festa contará com a presença dos congados de Mariana — não apenas da sede, mas também dos distritos da Barroca e da Comunidade Quilombola de Furquim —, que se juntarão a grupos das cidades de Ouro Preto, Piranga, Presidente Bernardes, Porto Firme e Congonhas, entre outras. Juntos, participarão de um grande cortejo que sairá da Praça Minas Gerais, às 9h30, em direção à Igreja do Rosário, tendo a frente os Cavaleiros de São Benedito e o Santo Padoreiro na charrete. reunindo fé, tradição e expressão cultural.
A dimensão religiosa também ocupa lugar central na programação. Entre os dias 16 e 18 de abril, será realizado o Tríduo Festivo, sempre às 19h30, com a participação de diversas comunidades da cidade, como Rosário, Barro Preto, Santa Cruz, Colina, São Miguel e São Gonçalo, além de Irmandades, Ordens Terceiras, Vicentinos, familiares de ferroviários e descendentes das famílias que contribuíram para a permanência e preservação da Igreja do Rosário.

Histórico
Em Mariana, a devoção a São Benedito remonta ao período da colonização, tendo como referência inicial a atual Igreja de Santo Antônio, antigo Rosário Velho. Por volta de 1752, consolidaram-se as Irmandades do Rosário dos Homens Pretos, de Santa Efigênia e de São Benedito, com a construção de um novo templo que expressava a força e a organização da população negra da cidade. Para ornamentar esse espaço, foram contratados importantes artistas, como Manuel da Costa Ataíde, responsável pela pintura e douramento, e o mestre Antônio Francisco Vieira Servas, entre outros.

Além das celebrações dedicadas a Nossa Senhora do Rosário, a comunidade também festejava Santa Efigênia e São Benedito. Embora existam poucos registros escritos, essas manifestações permanecem vivas na memória popular, especialmente nas festas do povo negro, marcadas pelos congados, cantos e danças, protagonizados por ferroviários e famílias tradicionais que viviam entre a linha férrea e o Rosário.
Com o passar do tempo, essas festividades foram sendo interrompidas devido a diversas dificuldades, entre elas o fechamento prolongado da Igreja de Nossa Senhora do Rosário para restauração. A retomada dos louvores à padroeira ocorreu em 2022, com a reabertura do templo, reacendendo o movimento de valorização das tradições.
Atendendo ao desejo de diversos grupos e devotos, a retomada da Festa de São Benedito ganhou força a partir de 2024, quando a Pastoral Afro-brasileira de Ouro Preto e Mariana, juntamente com comunidades locais — especialmente dos bairros Barro Preto e Rosário —, congados, grupos culturais e fiéis, passou a reconstruir coletivamente os festejos. A celebração ressurge em torno da figura de São Benedito como cozinheiro, curandeiro, cuidador dos pobres e símbolo de simplicidade e fé do povo negro.
Desde então, a festa vem sendo organizada ao longo de todo o ano, por meio de reuniões e ações comunitárias. Em 2025, consolidou-se como um evento de grande relevância cultural e religiosa, ampliando a participação popular e fortalecendo sua programação, que integra celebrações litúrgicas, cortejos, cantos, danças e expressões da cultura afro-brasileira. Destaca-se também a participação do Coletivo Rosa Negra, formado por mulheres ligadas à cultura afro-brasileira em Mariana, que contribui com a musicalidade, a organização e a valorização dos saberes tradicionais.
Ao completar três anos de retomada, a Festa de São Benedito reafirma-se como um patrimônio vivo de Mariana, promovendo não apenas a fé, mas também o encontro, a partilha e o reconhecimento das raízes afro-brasileiras que constituem a identidade da cidade. Mais do que uma celebração religiosa, a festa se consolida como um movimento de valorização cultural e fortalecimento comunitário, garantindo que essa tradição centenária permaneça viva e seja transmitida às futuras gerações.
Fonte: Solange Palazzi e historiadora e integrante da equipe organizadora da Festa de São Benedito



