Mostra de Cinema de Ouro Preto acontece entre 25 e 30 de junho com o tema central “Um país existe nas imagens que preserva” vai permear toda programação oferecida gratuitamente

A CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto chega à sua 21ª edição reafirmando o cinema como patrimônio cultural e espaço de construção da memória coletiva, com uma programação dedicada à preservação audiovisual, ao protagonismo das mulheres no cinema e ao papel da educação na formação do olhar.

De 25 a 30 de junho de 2026, a cidade histórica de Ouro Preto recebe realizadores, pesquisadores, educadores, estudantes e público de diferentes regiões do país para refletir sobre o tema central desta edição: “Um país existe nas imagens que preserva”. A proposição toma o cinema como território privilegiado de construção das identidades culturais, sociais e políticas do Brasil.

As atividades acontecem em três espaços principais: o Centro de Artes e Convenções da UFOP, sede do evento e do Cine-Teatro Petrobras (510 lugares); a Praça Tiradentes, com o Cine-Praça (500 lugares), destinado à abertura, ao encerramento e às exibições ao ar livre; e o Cine-Museu (90 lugares), instalado no Anexo do Museu da Inconfidência. Parte da programação também poderá ser acompanhada gratuitamente pela plataforma www.cineop.com.br.

Programação:

LANÇAMENTO DE LIVROS, EXPOSIÇÃO E ATRAÇÕES ARTÍSTICAS

Entre as atrações culturais da 21ª CineOP, o Cortejo da Arte percorre as ruas históricas de Ouro Preto com bandas, grupos folclóricos e artistas convidados. A Festa Junina – Arraiá da CineOP integra a Mostra Valores e reúne grupos da cidade para um dia festivo que valoriza a arte, os sabores e as tradições locais, beneficiando instituições sociais do município.

A programação inclui ainda o lançamento de livros e sessão de autógrafos com a presença dos autores, no dia 28 de junho, às 12h30, no Centro de Artes e Convenções da UFOP, promovendo o encontro entre público, pesquisadores e profissionais do audiovisual em torno de publicações dedicadas ao cinema, à preservação e à educação.

Cine Lounge Show movimenta as noites da CineOP com apresentações que atravessam diferentes estilos e gerações. A programação reúne a Tropikaus, banda ouro-pretana que celebra a diversidade da música brasileira em um repertório vibrante e contemporâneo; a Retrowave, que resgata clássicos do rock das décadas de 1980 e 1990; o DJ Cabra Guaraná, que mistura brega, funk, piseiro, paredão e eletrônica em sets marcados pela energia e brasilidade; e a Hocus Pocus, referência na cena musical mineira há quatro décadas com seu tributo aos Beatles.

FILMES EM EXIBIÇÃO

A programação reúne 139 filmes – longas, médias e curtas-metragens brasileiros e internacionais distribuídos em mostras temáticas, contemporâneas, competitiva, mostrinha e sessões cine-escola.

A sessão de abertura, na Praça Tiradentes, apresenta dois filmes da cineasta homenageada: “A Entrevista” (1966), o curta documental que reuniu depoimentos de jovens da classe média alta sobre casamento, sexo e submissão ao marido, e “Meio Dia” (1970), curta ficção rodado em São Paulo. A exibição em cópia restaurada de “O Ébrio” (Gilda Abreu, 1946), que acompanha a ascensão e a crise moral de um jovem interiorano que se torna cirurgião de sucesso na cidade grande, é outro destaque da programação, na Praça Tiradentes.

MOSTRA COMPETITIVA CONTEMPORÂNEA

A Mostra Competitiva reúne cinco longas-metragens que têm em comum o uso criativo de imagens de arquivo para construir novas narrativas audiovisuais. Sob o título Arquivos em Questão, a seleção valoriza o trabalho de realizadores que utilizam o arquivo não apenas como registro, mas como linguagem artística. O melhor filme será escolhido pelo júri e receberá o Troféu Vila Rica na cerimônia de encerramento.

Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas” (Carlos Adriano, SP) parte do único registro em filme do escritor Marcel Proust (1904) para um ensaio cinepoético sobre as “im/possibilidades” de adaptar sua obra monumental. “Apocalipse Segundo Baby” (Rafael Saar, RJ) é uma viagem pela trajetória plural e transgressora de Baby do Brasil, dos Novos Baianos ao brilho da carreira solo. “Irritante Prodígio” (Luiza Lindner, SC/SP) tensiona os limites entre autobiografia e performance ao destrinchar uma infância hospitalar e psiquiátrica marcada por um período de desnutrição. “Universo Circular – Jocy de Oliveira” (Dácio Pinheiro, SP) retrata a pioneira da música eletrônica no Brasil, que, em 1961, realizou a primeira performance do gênero no país e aos 90 anos segue inquieta. “Notas Sobre um Desterro” (Gustavo Castro, PR) revisita filmagens de uma família brasileiro-palestina na Cisjordânia em 2018 após 7 de outubro de 2023, e o que seria um filme sobre coexistência vira uma reflexão sobre colonização e genocídio.

MOSTRA CONTEMPORÂNEA | LONGAS

A programação contemporânea não competitiva inclui longas e curtas em pré-estreia nacional que ampliam o diálogo com os eixos temáticos. “Anistia 79” (Anita Leandro, RJ) reacende, a partir de imagens de exilados filmando a Conferência Internacional pela Anistia em Roma em 1979, o debate sobre a impunidade dos torturadores da ditadura. “Fernanda Abreu – Da Lata 30 Anos, o Documentário” (Paulo Severo, RJ) parte de material inédito das gravações do álbum de 1995 para reconstituir um momento fundamental da música e da cultura carioca. “Fernando Coni Campos: Cada Um Vive Como Sonha” (Luis Abramo e Pedro Rossi, RJ) mergulha na trajetória do diretor de “Viagem ao Fim do Mundo” (1968), cineasta rebelde e solitário que pretendia inaugurar o mundo com o seu cinema-poesia. “As Dores do Mundo – Hyldon” (Emilio Domingos e Felipe David Rodrigues, RJ) e “Vivo 76” (Lírio Ferreira, PE) completam a seleção.

MOSTRA CONTEMPORÂNEA | CURTAS

A Mostra Contemporânea da 21ª CineOP apresenta um panorama diverso de obras que exploram imagens e sons de arquivo por meio de documentários, ensaios experimentais, animações e filmes-poema. Os curtas revisitam temas como mineração, patrimônio industrial, memória cinematográfica, figuras marcantes da cultura brasileira, histórias indígenas, relações de trabalho e narrativas históricas silenciadas, propondo novas leituras para materiais preservados ao longo do tempo. Ao combinar pesquisa, invenção estética e reflexão crítica, a mostra reafirma o arquivo audiovisual como matéria viva, capaz de reconfigurar as relações entre passado, presente e futuro.

MOSTRA TV UFOP

A seleção da TV UFOP na 21ª CineOP reúne curtas-metragens que investigam o arquivo como instrumento de permanência e atualização da memória coletiva. Entre manifestações culturais, tradições indígenas, trajetórias de resistência, cenas musicais periféricas, histórias familiares e revisitações críticas da ditadura civil-militar, os filmes transformam registros do passado em experiências vivas, conectando questões históricas a debates contemporâneos. Ao privilegiar olhares comunitários e territoriais, a mostra evidencia como os arquivos ultrapassam a função de testemunho para se afirmarem como espaços de continuidade cultural, identidade e reflexão sobre o presente.

MOSTRA PRESERVAÇÃO

A Mostra Preservação destaca cópias restauradas e obras que evidenciam o patrimônio audiovisual como memória dinâmica. Entre os longas restaurados, destacam-se os clássicos “Vento Norte” (Salomão Scliar), “Xica da Silva” (Cacá Diegues) e “O Ébrio” (Gilda Abreu), apresentado em sessão especial no histórico Cine-Praça.

Xica da Silva – Dir Carlos Diegues

Em pré-estreia nacional, “Os Irmãos Segreto” (Michele Manzolini e Federico Ferrone) conta, em tom de conto de fadas, a história dos imigrantes italianos Pasquale, Gaetano e Alfonso Segreto, que saíram da pobreza para se tornar os primeiros cineastas da história do Brasil. O filme argentino “O Filme Infinito” (Leandro Listorti, 2018) constrói uma história paralela do cinema com restos de filmes que nunca foram terminados.

MOSTRA EDUCAÇÃO

A Mostra Educação exibe filmes produzidos por educadores, estudantes e cineastas em contextos escolares e espaços não-formais de ensino, divididos nas sessões Infâncias e Juventudes, com obras do Brasil, Colômbia, Argentina e Uruguai. Entre os longas, “Fraternura” (Evanize Sydow e Américo Freire, 2026) revela o lado íntimo de Frei Betto, explorando sua relação com a família e o impacto do cárcere durante a ditadura militar; e “Arquivo Vivo” (Vincent Carelli e Ana Carvalho), que revisita a origem do Vídeo nas Aldeias após 40 anos, ao tratar do projeto que devolveu às primeiras comunidades indígenas visitadas os registros históricos ali realizados.

TEMÁTICA HISTÓRICA

COMO ELAS COMEÇARAM? MEMÓRIAS DO PRIMEIRO FILME

A Temática Histórica da 21ª CineOP investiga os percursos de mulheres cineastas brasileiras e os contextos em que realizaram seus primeiros filmes, com ênfase nos caminhos até o primeiro longa-metragem. Tomando os anos 1970 como marco histórico do surgimento do “cinema de mulheres”, a curadoria de Cléber Eduardo e Juliana Gusman recua no tempo para recuperar trajetórias antes invisibilizadas ou sub-representadas na historiografia do audiovisual brasileiro, num gesto de reescrita da história que reconhece a centralidade das mulheres na construção das imagens e narrativas do país.

A programação reúne obras de diferentes gerações, entre elas “Feminino Plural” (Vera de Figueiredo, 1976), que completa 50 anos e retrata a condição da mulher brasileira em diferentes camadas sociais; “Mar de Rosas” (Ana Carolina, 1977), farsa familiar que subverte papéis de gênero com ironia e invenção formal; “Que Bom te Ver Viva” (Lucia Murat, 1989), que entrelaça depoimentos reais de ex-presas políticas a uma personagem de ficção para tratar da tortura durante a ditadura militar; “Um Céu de Estrelas” (Tata Amaral, 1996), mostrando uma mulher diante da violência doméstica num único fluxo de ação; e “Um Dia com Jerusa” (Viviane Ferreira, 2020), sobre o encontro de duas mulheres no bairro do Bixiga, carregado de memórias ancestrais.

HOMENAGEM: O CONTRACINEMA DE HELENA SOLBERG
Helena Solberg – Créditos Ique Esteves

A cineasta carioca Helena Solberg é a homenageada da 21ª CineOP. Em 1966, realizou “A Entrevista”, considerado o marco do cinema realizado por mulheres no Brasil e frequentemente apontado como o primeiro filme feminista da produção moderna brasileira, no qual reunia depoimentos de jovens da classe média alta sobre casamento, sexo e trabalho.

Radicada nos EUA a partir dos anos 1970, desenvolveu a Trilogia da Mulhe – “The Emerging Woman” (1974), “The Double Day” (1975) e “Simplesmente Jenny” (1977) – produzida no âmbito do International Women’s Film Project, coletivo que liderava em Washington. Na década seguinte, voltou as câmeras para as ditaduras latino-americanas em “Chile, By Reason or By Force” (1983).

Fonte: Universo Produção

Foto: Leo Lara/ Universo Produção